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Prefácio de Ondina (Friedrich de La Motte Fouqué)

Karin Volobuef

 

Em plena Idade Média, à beira de um extenso lago nas imediações de uma floresta cheia de perigos e mistérios, situa-se a cabana de um pobre pescador. Já idoso, leva ali sua vida simples e rústica, em companhia de sua pequena família. Árvores seculares e prados floridos compõem um recanto idílico, distante e apartado do resto do mundo. Este é o cenário que verá nascer o amor imperecível entre um homem e uma ninfa.

Ondina, mais do que uma tocante história de amor, é um hino de louvor à Natureza, às velhas narrativas folclóricas, à pureza de sentimentos e ao verdadeiro calor humano. Isto talvez explique por que Goethe o considerava o "mais adorável dos contos de fadas". O apreço manifestado pelo grande mestre encontrou eco à medida que o texto se difundiu pelo mundo afora, e, ao longo dos anos, desde a sua publicação em 1811, Ondina tornou-se - ao lado de A história maravilhosa de Peter Schlemihl, de Chamisso - o mais famoso conto de fadas do romantismo alemão.

Como verdadeiros testemunhos dessa fama, diversas obras surgiram na esteira do conto de Fouqué, tanto no campo da música como da literatura. Encabeçando a lista está a ópera Undine do romântico E. T. A. Hoffmann, que estreou em Berlim em 1816 e cujo libreto foi escrito pelo próprio Fouqué. Em 1845 seguiu-se a ópera homônima de Albert Lortzing. A ninfa criada por Fouqué também inspirou numerosos balés, de Taglioni até Hans Werner Henze, além de obras puramente instrumentais, das quais a mais famosa é, talvez, a primeira peça do Gaspard de la nuit, de Maurice Ravel. Na literatura, contam-se a peça Ondine, de Jean Giraudoux e o monólogo da escritora alemã Ingeborg Bachmann, Undine geht, além do conhecido ensaio de Edgar Allan Poe.

 

Nascido em Brandenburgo, no Império Alemão, o barão Friedrich De La Motte-Fouqué (1777-1843) descendia de uma família de imigrantes franceses huguenotes. Alistou-se em 1794 no exército prussiano e tomou parte nos combates contra Napoleão. Ligado principalmente aos românticos de Berlim, entre seus amigos e conhecidos contam-se nomes como os de August Schlegel e Heinrich von Kleist, mas também encontrou-se, em visita a Weimar, com Goethe, Schiller e Herder. Grande fomentador da literatura romântica, atuou como editor de revistas e livros, dentre os quais o próprio Peter Schlemihl de Chamisso.

A imensa produção literária de Fouqué abrange romances, dramas, narrativas e poesias. Apesar dessa profusão, foi especialmente a prosa que lhe trouxe o sucesso. Um traço característico de sua obra é a predileção pela Idade Média e pela mitologia nórdica, o que se revela, por exemplo, em seu mais famoso romance, Der Zauberring (O anel mágico, 1813), no qual as aventuras dos cruzados fornecem o pano de fundo histórico para o enredo.

Este veio mítico e fantástico é explorado igualmente em Ondina. Para criar este conto, Fouqué buscou inspiração em um antigo livro de Paracelso, o Liber de nymphis, sylphis, pygmaeis et salamandris, et de caeteris spiritibus, de 1591, no qual estão descritos os espíritos elementares e suas relações com os seres humanos. Trata-se de uma temática antiqüíssima que ocupa o imaginário popular desde as épocas mais remotas, pois sempre foi típico do homem personificar a Natureza, concebendo seres mitológicos semelhantes a si próprio que habitariam a água, o fogo, a terra e o ar. Dentre estes espíritos elementares, Ondina trata mais especificamente daqueles que vivem na água - os quais encontram-se representados nas mitologias e lendas dos mais variados lugares: as ninfas na mitologia greco-romana, as ondinas na mitologia germânica e escandinava, as sereias com cauda de peixe (que até hoje povoam filmes, histórias em quadrinhos, desenhos animados, etc.) e, aqui no Brasil, a figura folclórica da Iara ou a Mãe-d’água.

Conjugada a esta dimensão mítica e à valorização do passado medieval, o conto Ondina desenvolve uma representação da Natureza que é típica do romantismo alemão. Partindo das teorias do filósofo Friedrich von Schelling, os escritores românticos compreendiam o universo como um grande organismo unitário, no qual mundo e indivíduo, exterioridade e interioridade, harmonizam-se e complementam-se. Resulta dessa concepção a idéia de uma Natureza espiritualizada que reflete os mesmos sentimentos e aspirações do homem. Nela, os poetas românticos julgavam encontrar o mesmo mistério insondável que caracteriza a alma humana, motivo pelo qual a paisagem romântica sempre exala o perfume do desconhecido e do inexplorado. E, assim como o ser humano apresenta profundidades insondáveis, os labirintos da Natureza escondem segredos muitas vezes aterrorizantes e ameaçadores.

Em consonância com esta visão tipicamente romântica, Fouqué retrata em Ondina uma Natureza personificada, que palpita de mistérios e surpresas - uma Natureza ao mesmo tempo bela e assustadora, sublime e demoníaca. Mais do que isto, ele faz da Natureza um fator de coesão do texto, um elemento que perpassa e unifica a narrativa em seus vários níveis constitutivos - espaço, enredo, personagens, linguagem - e torna Ondina uma criação extraordinariamente rica e complexa do ponto de vista estético.

 

Os espíritos elementares aquáticos que figuram no conto são uma extensão da própria Natureza, pois a água define imediatamente sua existência, constituindo seu corpo e moldando seu temperamento. O mesmo personagem - Kühleborn, por exemplo - tanto pode assumir a forma de homem que fala, tem pernas e braços, como também de arroio, cascata ou onda. Tal como a água, seu corpo flui constantemente, assumindo uma ou outra forma. A mesma identidade com o elemento em que vivem se revela no temperamento desses seres aquáticos: sua serenidade corresponde à placidez dos lagos e mares em dias de calmaria, sua cólera é tão terrível e destruidora como a fúria das vagas.

O mesmo se dá com a ninfa Ondina. Seus olhos azuis como o lago dão testemunho de sua ligação e até identificação com a Natureza, e seu arrebatamento, indisciplina e índole caprichosa remetem diretamente às águas de que proveio. Inclusive seu nome - em alemão, "Undine" - provém do latim "unda", que significa "onda". Esta afinidade com o elemento líquido mantém-se durante todo o texto, mesmo após o episódio em que Ondina ganha uma alma - momento em que, supostamente, ela passaria a assemelhar-se mais aos homens do que aos espíritos elementares. Um dos meios empregados pelo autor para indicar essa persistência é o freqüente choro de Ondina na segunda parte do texto: suas lágrimas abundantes sempre recordam ao leitor a origem aquática da ninfa. As lágrimas funcionam ainda como uma antecipação da pequena fonte ao final do texto, cujo destino será fluir pelos séculos afora, como eterno emblema de um amor sem fim.

Por sua disposição altruísta - demonstrada quando salva Huldbrand e Bertalda no Vale Negro - Ondina também representa a água como princípio e origem da vida. De fato, ao final desse episódio, ela é comparada a uma pomba - que, na Bíblia, aparece como presságio de uma nova vida após a inundação aniquiladora. Kühleborn, ao contrário, personifica apenas a força impulsiva e destruidora das águas.

Falar dos personagens ou mesmo do enredo em Ondina leva-nos sempre a mencionar a água, a floresta, o vale - ou seja, a Natureza. Pois esta é um elemento decisivo neste texto: a floresta leva Huldbrand até Ondina, e, mais tarde, o rio Danúbio cuidará de separá-los; o lago arranca Bertalda de seus pais e traz-lhes Ondina; o rio da floresta impede que Huldbrand volte à cidade antes de celebradas as bodas com a ninfa. Sempre presente e sempre atuante, a Natureza não é apenas o espaço ou cenário onde se desenrolam os acontecimentos, mas é um personagem ativo, que tem o poder de influir sobre o rumo tomado pela história.

Além de sua relação imediata com os espíritos elementares, a Natureza tem também uma importante vinculação com os personagens humanos, embora não ocorra, neste caso, uma completa fusão entre ela e o personagem. Isto se torna manifesto nos trechos descritivos, nos quais o narrador dota a Natureza da função de refletir o que se passa no íntimo das pessoas. Em outras palavras, ela se torna um espelho dos sentimentos, impressões e pensamentos dos personagens. Observe-se o final do sétimo capítulo, quando Huldbrand, após momentos de grande incerteza, rende-se aos encantos de Ondina, que está "docemente iluminada pela Lua". Logo a seguir, no início do oitavo capítulo, quando o relato se debruça sobre os temores que assaltam o sono de Huldbrand, o luar lança pela janela uma "luz fria e pálida". No primeiro caso, a ternura do cavaleiro é espelhada pelo "doce" luar, no segundo, o desconforto e a angústia modificam negativamente a luz irradiada pela Lua. Aquilo que se passa dentro do cavaleiro e aquilo que se passa fora estão, portanto, associados. Sentimentos do personagem e manifestações da Natureza constituem lados diferentes de uma mesma moeda, embora não se identifiquem, como no caso dos espíritos elementares.

E a ubiqüidade da Natureza não pára por aí. Também ao nível da linguagem ela está presente em uma série de metáforas, figurações e imagens que se entremeiam por todo o texto: "Minha esposa aproximou-se com olhos que marejavam como dois regatos" (capítulo dois), ou "... ela sorriu por entre as lágrimas, e foi como se o sol nascente se refletisse em pequenos regatos" (capítulo sete), ou ainda "... Ondina, ostentando em seus olhos um mar de inocência e confiança" (capítulo onze). Com estas construções, a Natureza passa a impregnar a linguagem, fornecendo suporte e complemento para os outros elementos que compõem o conto. Esta delicada teia de inter-relações efetua, no texto, um entrelaçamento dos vários níveis da narrativa - linguagem, enredo e personagens - e é ela que constitui a essência verdadeiramente poética deste conto.

 

A apologia da Natureza nasce dos ideais pregados pelos românticos, que desprezavam todo o tipo de imposição de normas e defendiam o que consideravam natural e espontâneo. Fouqué dá a ela um papel de destaque e trabalha-a de maneira a expressar sua crítica às convenções sociais e ao rigor hierárquico que teriam, a seu ver, empedernido o homem, privando-o do prazer diante das coisas simples e verdadeiras. Esta oposição revela-se em Ondina sob a forma de dois pólos opostos: a Natureza selvagem e a cidade, e cada qual determina uma forma peculiar de existência. Vivendo nos rios e florestas, os espíritos elementares desconhecem hipocrisia ou malícia, temores ou sofrimento. São livres e despreocupados, ingênuos e espontâneos, e sua vida não é conduzida nem circunscrita por quaisquer formas de convencionalismo moral ou social. Já os homens, em grande parte, aglomeram-se em cidades inóspitas e ruidosas, e sua convivência funda-se na valorização do dinheiro, na vaidade e a ambição, nos preconceitos e nas desigualdades sociais.

Esta mesma contraposição vale para as duas figuras femininas que disputam o coração de Huldbrand: Ondina e Bertalda. A primeira, pura e genuína, representa a força primordial da Natureza e das águas; a segunda, convencional e artificiosa, expressa a civilização já desumanizada pelas instituições petrificadas. É em Ondina que se encontra o verdadeiro modelo de calor humano, de amor e dádiva, abnegação e sacrifício em prol daqueles que lhe são caros. Paradoxalmente, ela é mais "humana" do que todos aqueles que a rodeiam.

Ondina não conhece nem entende as regras que guiam a vida em sociedade, ao passo que Bertalda existe apenas enquanto membro dessa hierarquia artificial. Não tendo sido capaz de prever quão desastroso seria confrontar Bertalda com seus verdadeiros pais, Ondina demonstrou não reconhecer as diferenças de status social. Para ela, apenas tem relevância a pureza da alma e a força da verdade. Já Bertalda tem profundamente enraizado em seu íntimo o sentimento de superioridade sobre as pessoas que considera inferiores ou indignas de sua companhia, o que fica patente na sua relutância em aceitar a verdade sobre seu nascimento.

Huldbrand oscila entre esses dois extremos. Ele sintetiza o homem fraco, incapaz de decidir-se entre duas mulheres; na verdade, incapaz de escolher entre duas aspirações diferentes. Embora anseie pelo encantamento e simplicidade da vida na cabana, ele está intimamente apegado a valores aristocráticos como honra, coragem e a superioridade intrínseca de sua casta - motivo pelo qual nutre dúvidas em relação a Ondina, não podendo senão conceber que seja filha de alguma nobre família do estrangeiro. Além disso, em sua relação com as outras pessoas, os aspectos materiais sempre sobrepujam sentimentos humanitários de compaixão ou simpatia, o que se demonstra, por exemplo, em seu intento de indenizar os descendentes do proprietário do barril de vinho que aportou no promontório (ao invés de consolá-los pela sua suposta morte), ou ainda, no episódio do encontro com o duende na floresta, quando a única coisa que se propõe a oferecer-lhe é dinheiro.

A hesitação entre escolher alguém totalmente alheio às normas estabelecidas ou alguém que a elas se adapta perfeitamente constitui todo o drama interior de Huldbrand. Mais do que um dilema amoroso, implica em decidir-se pela sujeição às imposições sociais (representadas por Bertalda) ou por desenvolver uma esfera mais intimista, na qual prevaleceriam os valores verdadeiramente humanos (representados por Ondina). Estes dois personagens femininos não apenas têm temperamentos totalmente diversos, mas estimulam no cavaleiro tendências opostas. Ondina e Huldbrand apaixonaram-se na época em que este vagava pelo promontório, sem seu ginete de batalha, sua espada ou seu escudo; Bertalda, no entanto, conheceu-o durante o torneio de justas, no qual ele exibia publicamente sua destreza nas armas. Em conseqüência, o que Ondina espera de Huldbrand é amor e lealdade, enquanto Bertalda exige dele feitos de cavaleiro: ele deve provar sua coragem embrenhando-se na floresta cheia de perigos, salvá-la mais tarde no Vale Negro, etc. Para Ondina, importa apenas o bem-estar de Huldbrand, já Bertalda pouco se comove com seu sofrimento, aceitando casar-se com o cavaleiro a despeito de ele ainda estar sofrendo com sua recente viuvez.

É por isso que, ao longo do texto, o entendimento entre Huldbrand e Ondina é sempre maior nos aposentos privados, domínio da esfera intimista. Entre ele e Bertalda, por outro lado, há maior afinidade nos espaços de convívio social, nos quais a ligação com o cavaleiro pode satisfazer sua vaidade e elevá-la socialmente, como demonstra o seu regozijo ao impor sua vontade e ver cumpridas suas ordens no burgo. Ondina, podemos dizer, apaixonou-se pelo homem, Bertalda pelo cavaleiro.

Bertalda exibe o comportamento feminino estipulado pelas normas da sociedade medieval: quando cortejada, ela não revela abertamente seu afeto mas primeiro exige do cavaleiro uma prova de destreza e valentia, para só depois, como recompensa, ofertar-lhe seu amor. É, portanto, um jogo de troca baseado em condições preestabelecidas, segundo as quais a própria Bertalda se transforma em troféu. Ondina, ao contrário, não hesita em demonstrar abertamente, no início do texto, seu amor por Huldbrand. Sem esperar que ele a corteje segundo os costumes tradicionais, ela própria busca conquistá-lo, sem impor quaisquer condições. Para completar, ela troca afagos e carinhos com seu amado mesmo sem a bênção dos pais e da Igreja. Ondina furta-se a exercer o papel tradicionalmente atribuído à mulher - o de esperar inerte pela iniciativa do homem. Em conseqüência, ela não corresponde ao ideal de mulher passiva e acanhada, vigente no período medieval, e que continuou a ser exigido pela moral burguesa.

Mais tarde, porém, Ondina sofre uma transformação. Com o casamento, ela abandona seu estado "livre" e "selvagem" e passa a submeter-se aos ditames institucionais. Em conseqüência, assume o papel tradicional, adotando o comportamento de esposa dócil e sofredora. A "alma" que o casamento lhe confere pode ser interpretada como sinal da inserção de Ondina na sociedade, através da instituição do casamento.

Curioso, porém, é que esta submissão ao papel tradicional da mulher não é completa. Embora Ondina ganhe uma alma ao casar-se com Huldbrand, ainda assim ela continua mantendo um contato mais ou menos direto com os espíritos elementares, ou seja, com a Natureza. Com isto, na segunda parte da história, Ondina exibe predicados tanto da Natureza selvagem como da Natureza "domesticada" - sua índole essencialmente bravia e indomável não se deixa de todo submeter. É precisamente isto que, em muitos momentos, a faz parecer estranha e até amedrontadora aos olhos de Huldbrand e Bertalda. Ondina mantém uma natureza dúbia, inconstante, formada de opostos, que acaba gerando toda sorte de eventos inexplicáveis e inesperados no decorrer da história.

Ondina - enquanto personagem que aglutina atributos de liberdade e rebeldia - opõe-se a tudo o que é banal ou ordinário, rejeitando todas as restrições do cotidiano mesquinho e limitado. Dada a sua origem fantástica, ela está ligada a um mundo de castelos de cristal e outras maravilhas; enfim, à fantasia que ultrapassa o pequeno mundo das pessoas presas às suas rotinas. Ondina representa a imaginação, a capacidade de inventar outras realidades, o poder de sonhar. Em outras palavras, representa a poesia, a liberdade criadora e a verdadeira inspiração, que estão acima de todas as leis. E é por isso que, no final, nem a lei dos homens, nem a lei dos espíritos aquáticos conseguem afastá-la de seu amado. A despeito de tudo e de todos, ela consegue reunir-se a ele para sempre.

 

Ondina é a história de um amor que a tudo resiste e que prevalece, por fim, sobre todos os infortúnios. Fouqué transporta o leitor para um mundo de magia, garbo cavaleiresco e amor eterno que vem encantando gerações e mais gerações a cada nova edição. Aqui, pela primeira vez, o "mais adorável dos contos de fadas" está acessível ao público brasileiro. E, quem sabe, talvez mais uma vez o encanto se repita.

 

Ondina - Capítulo Um 

 

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