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FRIEDRICH DE LA MOTTE FOUQUÉ

 

Ondina

 

Tradução de Karin Volobuef

 

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CAPÍTULO UM

Como o cavaleiro chegou à casa do pescador.

 

Era uma vez - e já devem ter passado bem algumas centenas de anos - um velho e bondoso pescador que certo dia, ao cair da tarde, estava sentado diante de sua porta consertando suas redes. A região em que morava era muito agradável. O solo verdejante sobre o qual sua cabana estava construída estendia-se longamente por uma grande lagoa adentro, dando a impressão de que o promontório havia avançado até tão longe por amor à correnteza azulada, límpida e muito transparente, ou então, que a água havia estendido seus braços apaixonados para cingir a bela campina, suas relvas e flores altas e flexíveis, e a sombra refrescante de suas árvores. Um abrigava o outro e, justamente por isso, cada qual era tão formoso. Apesar disso, raramente ou quase nunca se via pessoas nesse belo lugar, exceto o pescador e seus familiares. Isto porque atrás do promontório havia uma floresta muito selvagem que - devido à escuridão e falta de caminhos transitáveis e também às estranhas criaturas e fantasmagorias que, segundo se dizia, podiam ser encontradas lá dentro - amedrontava por demais as pessoas para que estas por lá se aventurassem sem necessidade. No entanto, o velho e bondoso pescador nunca era incomodado nas muitas vezes em que a percorria, levando os magníficos peixes apanhados em seu belo promontório para uma grande cidade que ficava logo atrás da extensa floresta. Para ele era tão fácil atravessar a mata, talvez, em particular, porque quase só se ocupava com pensamentos devotos, e além disso, sempre que penetrava as sombras agourentas, costumava entoar à viva voz e de coração aberto um cântico religioso.

Mesmo assim, nessa tarde, enquanto trabalhava muito despreocupado com suas redes, foi inesperadamente tomado de um susto ao ouvir na penumbra da floresta um ruído - semelhante ao de um homem à cavalo - que se acercava cada vez mais do promontório. Aquilo que em muitas noites de tempestade sonhara acerca dos mistérios da floresta veio-lhe de repente à memória, sobretudo a imagem de um homem gigantesco e alvo como a neve, que sem parar acenava de modo estranho com a cabeça. E de fato, ao levantar os olhos em direção ao arvoredo, teve realmente a impressão de ver emergir, por entre o gradil de folhagens, o homem que acenava. Mas logo controlou-se, ponderando que, se jamais lhe ocorrera algo de inquietante na própria floresta, então com certeza aqui fora, no promontório aberto, o espírito malévolo seria ainda menos capaz de exercer seu poder sobre ele. Rezou ao mesmo tempo um versículo bíblico, com uma voz forte e decidida que provinha do fundo da alma. De fato, sentiu que com isso recobrava a coragem e o ânimo e, quase a ponto de prorromper em uma risada, viu o quanto se havia enganado. Pois, de um instante para outro, o homem branco acenando tornou-se um pequeno regato, de há muito seu conhecido, que corria espumante da floresta, caindo em jorros na lagoa. O ruído, na verdade, havia sido ocasionado por um cavaleiro formosamente ornado que despontou das sombras das árvores e vinha cavalgando em seu corcel rumo à cabana. Um manto vermelho escarlate caía sobre seu gibão azul escuro bordado a ouro; do barrete de cor dourada ondulavam plumas vermelhas e azul escuras; no boldrié dourado reluzia uma belíssima espada ricamente adornada. O ginete branco que levava o cavaleiro era de compleição mais esbelta do que comumente se vê em cavalos de contenda, e marchava com tanta leveza sobre a relva que o colorido tapete verde parecia não receber disso qualquer mácula. O velho pescador não se sentia ainda totalmente confiante, embora se acreditasse obrigado a reconhecer que nada de mal poderia advir de uma figura tão afável. Em conseqüência, tirou com muita modéstia o chapéu diante do cavaleiro que se avizinhava, e aguardou tranqüilo junto às suas redes. Quando o cavaleiro se deteve, indagou se seria possível que ele e seu cavalo recebessem ali pousada e alimento por essa noite.

- Para seu cavalo, caro senhor - redargüiu o pescador - não posso oferecer melhor estábulo do que esta campina sombreada, nem melhor alimento do que a relva que nela cresce. Mas quanto ao senhor, ficarei feliz em servi-lo em meu casebre com uma ceia e um leito do melhor que nós, gente pobre, temos.

O cavaleiro deu-se por muito satisfeito com isso, apeou de seu ginete - o qual os dois juntos desselaram e desarrearam - e a seguir deixou-o vagar livre sobre o prado florido, dizendo ao seu hospedeiro:

- Ainda que fosse menos acolhedor e benévolo, meu velho pescador, creio que por hoje o senhor não se teria visto livre de mim pois, como vejo, há diante de nós um extenso lago e, quanto a retornar à estranha mata ao cair do crepúsculo, que Deus me proteja disso!

- Não falemos demasiado sobre isso - disse o pescador, e conduziu seu hóspede para dentro da cabana.

Lá dentro, em uma ampla poltrona junto ao fogão, cujo fogo esparso aclarava a saleta obscurecida e asseada, estava sentada a mulher do pescador, já de idade avançada. À entrada do distinto hóspede, ela levantou-se e cumprimentou-o amavelmente, mas voltou a sentar-se em seu lugar de honra sem oferecê-lo ao forasteiro, ao que o pescador disse com um sorriso:

- Não se zangue, jovem senhor, por ela não lhe ceder a poltrona mais confortável da casa, pois é costume entre os pobres que esta pertença exclusivamente aos anciães.

- Ah, homem - disse a mulher com um sorriso sereno - mas que idéias são essas? Nosso hóspede há de contar-se entre os cristãos e, nesse caso, como poderia ocorrer a esse sangue juvenil expulsar pessoas idosas de seus assentos?

- Sente-se, meu jovem senhor - prosseguiu ela, voltada para o cavaleiro - ainda há ali uma pequena cadeira de braços bastante cômoda, apenas o senhor não deve empurrá-la para lá e para cá muito impetuosamente, pois uma das pernas já não está lá muito segura.

O cavaleiro trouxe a cadeira com cuidado e nela sentou-se com polidez, sentindo-se como se pertencesse a essa pequena família e tivesse justamente retornado para casa vindo de longe.

As três boas almas começaram a conversar com muita cortesia e familiaridade. O cavaleiro vez por outra fez perguntas sobre a floresta, mas o ancião não queria saber de falar sobre isso, acreditando que naquele momento, com o cair da noite, uma conversa a esse respeito seria ainda menos apropriada. Essa relutância, porém, era compensada pelo ânimo redobrado com que o casal contava de seu trabalho e demais afazeres. Também lhes aprazia ouvir o cavaleiro narrar suas viagens e contar que possuía um burgo junto às nascentes do Danúbio, e era tratado como senhor Huldbrand von Ringstetten. Ao longo da conversa, o forasteiro já tinha ouvido de quando em quando um chapinhar junto à janela pequena e baixa, como se alguém estivesse borrifando água contra ela. Sempre que se faziam ouvir esses ruídos, o velho pescador franzia a testa, contrafeito. Ao final, porém, quando todo um jato foi lançado contra as vidraças, respingando água para dentro da saleta através da esquadria mal vedada, ele ergueu-se aborrecido e bradou ameaçadoramente em direção à janela:

- Ondina, pare de uma vez com essas infantilidades! Ainda mais hoje, quando temos um senhor estranho na cabana!

Do lado de fora realmente se fez silêncio, ficando audível apenas uma risadinha em voz baixa, e o pescador disse ao retornar:

- O senhor, meu honrado hóspede, terá que desculpar isso e possivelmente até algumas diabruras mais, contudo, ela não o faz por mal. Trata-se de nossa filha adotiva, Ondina, que não consegue perder o costume de fazer traquinices, muito embora já deva contar dezoito anos. Mas, como já disse, no fundo ela tem um ótimo coração.

- Para você é fácil falar! - retorquiu a anciã abanando a cabeça. - Ao retornar da pesca ou de uma viagem, os gracejos dela podem lhe parecer muito agradáveis. Mas agüentá-la o dia inteiro sem ouvir uma palavra ajuizada sequer e, com o avançar da idade, ao invés de receber ajuda no trabalho doméstico, ter sempre de estar à espreita para impedir que as suas doidices nos levem à completa ruína - isso é muito diferente e basta para esgotar até a mais santa das paciências.

- Ora, ora - disse sorrindo o dono da casa - você tem a sua labuta com Ondina e eu com o lago. Repetidas vezes ele também rompe meus diques e rasga minhas redes e, ainda assim, eu lhe quero bem, tal como você à graciosa menina, apesar de todo o sofrimento e atribulações. Não é verdade?

- Não se pode realmente ficar de todo zangada com ela - respondeu a mulher com um sorriso de aquiescência.

Nesse momento a porta foi aberta bruscamente e uma linda loirinha entrou ágil e sorridente, dizendo:

- O senhor estava apenas fazendo troça de mim, meu pai. Onde está afinal o seu hóspede?

No mesmo instante, porém, ela já divisara o cavaleiro e ficou parada, atônita, diante do belo mancebo. Huldbrand deleitou-se à vista da graciosa figura e dispôs-se a fixar na memória com muita atenção aqueles traços encantadores, supondo que só teria tempo para isso enquanto perdurasse o assombro da donzela, pois, logo a seguir, ela iria esconder-se de seus olhares, tomada de acanhamento redobrado. Sucedeu, porém, algo bem diferente. Pois, após o observar durante um bom tempo, ela aproximou-se confiante, ajoelhou-se diante dele e, brincando com um pequeno adorno de ouro que ele trazia ao peito em uma preciosa corrente, disse:

- Ah, como foi que você, meu belo e gentil hóspede, chegou por fim até a nossa pobre cabana? Terá sido mesmo necessário que vagueasse anos a fio pelo mundo até nos encontrar? Você está vindo da floresta erma, meu formoso amigo?

Uma reprimenda da anciã não lhe deixou tempo para responder. Ela exortou a moça a levantar-se com bons modos e aplicar-se ao seu trabalho. Ondina, porém, sem dar resposta, puxou um banquinho para perto da cadeira de Huldbrand, sentou-se ali com a sua tela e disse muito cortês:

- Trabalharei aqui.

O velho pescador agiu como costumam agir os pais de crianças mimadas: fez como se não tivesse notado a má conduta de Ondina e fez menção de introduzir um outro assunto. Mas a jovem não lhe deu chance para isso, pois disse:

- Perguntei de onde veio o nosso amável hóspede, e ele ainda não me respondeu.

- Venho da floresta, minha bela - respondeu Huldbrand, ao que ela prosseguiu:

- Então você precisa contar-me como chegou lá, uma vez que as pessoas costumam evitá-la, e quais as aventuras extraordinárias por que passou, pois dizem, afinal, que é impossível atravessá-la sem que tais coisas ocorram.

Huldbrand sentiu um pequeno calafrio a essa lembrança e dirigiu involuntariamente o olhar para a janela, pois tinha a impressão de que alguma das formas bizarras com que se deparara na mata lá estaria, espreitando para dentro com uma careta. Nada viu além da noite densa e escura que já pairava lá fora defronte às vidraças. Controlou-se, então, e ia justamente dar início à sua história quando o ancião interrompeu-o com as seguintes palavras:

- Não faça isso, senhor cavaleiro, agora não é um bom momento para isso.

Ondina, entretanto, saltou furiosa de seu banquinho, fincou os formosos braços na cintura e, postando-se bem em frente ao pescador, exclamou:

- Ele não deve contar, pai? Não deve? Mas eu quero! Ele deve contar! Deve, sim!

E assim dizendo, batia com força o delicado pezinho no chão, mas tudo isso com uma elegância tão divertida e encantadora que, para Huldbrand, era quase mais difícil desprender os olhos dela assim furiosa do que antes, quando a vira amável. O resultado que isso produziu no ancião, no entanto, foi provocar a violenta irrupção da ira que até então estivera contida. Censurou veementemente a desobediência e o comportamento atrevido de Ondina para com o forasteiro, e a boa anciã fez coro a essa reprimenda. Ondina disse então:

- Se vocês querem discutir ao invés de fazer a minha vontade, então durmam sozinhos em sua cabana velha e esfumaçada.

E, qual uma flecha, saiu pela porta e correu pela tenebrosa noite adentro.

 

Capítulo Dois 

 

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