Make your own free website on Tripod.com

E. T. A. HOFFMANN

 

O Pequeno Zacarias chamado Cinábrio

 

Tradução de Karin Volobuef

 

*************************************************

 

SEGUNDO CAPÍTULO

Do povo desconhecido que o erudito Ptolomäus Philadelphus descobriu durante suas viagens - A Universidade de Kerepes - Como um par de botas de montaria voou em torno da cabeça de Fabian e o Professor Mosch Terpin convidou o estudante Balthasar para o chá.

 

Das afetuosas cartas que o mundialmente conhecido erudito Ptolomäus Philadelphius escrevia ao seu amigo Rufin quando se encontrava em suas longas viagens consta a singular passagem a seguir:

"Você sabe, meu querido Rufin, que não há nada que eu tema e receie mais do que os ardentes raios solares do dia, os quais consomem as forças do meu corpo e afrouxam e fatigam de tal modo o meu espírito que todos os pensamentos confluem em um quadro desordenado, e é em vão que luto por formar alguma imagem precisa em minha mente. Por isso, nesta estação quente, tenho o hábito de descansar durante o dia, enquanto à noite prossigo em minha viagem, e foi assim que me encontrava viajando também na noite passada. Em meio à profunda escuridão, meu cocheiro extraviou-se do caminho correto e conveniente, desembocando de súbito em uma estrada de cascalho. Muito embora fosse atirado para lá e para cá dentro do carro pelos violentos solavancos - a ponto de minha cabeça cheia de galos mais parecer-se a um saco repleto de nozes - só acordei do profundo sono no qual estava mergulhado quando um terrível abalo arrojou-me para fora do carro sobre o chão duro. O clarão do sol atingiu em cheio meu rosto e, através da barreira levadiça imediatamente à minha frente, avistei as altas torres de uma imponente cidade. O cocheiro prorrompeu em lamentações pois não apenas a lança como também uma roda traseira do carro tinham-se quebrado contra uma grande pedra que havia no meio da estrada, e parecia preocupar-se pouco ou mesmo nada comigo. Reprimi minha cólera, como convém a um sábio, e apenas bradei mansamente ao vilão que ele era um maldito sacripanta e disse-lhe que ponderasse o fato de Ptolomäus Philadelphus, o mais famoso erudito de seu tempo, estar sentado com a b... no chão, e que mandasse às favas a lança e a roda. Você bem conhece, meu querido Rufin, o poder que eu exerço sobre o coração humano, e assim aconteceu de fato que o cocheiro imediatamente parou de lamentar-se e, com o auxílio do cobrador da barreira, em frente de cuja casa se dera o acidente, ajudou-me a ficar em pé. Por sorte eu não sofrera nenhum dano mais sério, estando em condições de caminhar lentamente pela estrada enquanto o cocheiro seguia-me, arrastando com esforço o carro quebrado. À pouca distância do portão da cidade que eu avistara ao longe no horizonte azulado, deparei-me com uma multidão de pessoas de maneiras tão extravagantes e com roupas tão estranhas que esfreguei meus olhos para verificar se realmente estava acordado ou se um sonho disparatado e zombeteiro não me teria porventura acabado de transportar para um desconhecido país de fábula... Estas pessoas, que eu podia razoavelmente supor que eram os habitantes da cidade de cujo portão eu as via sair, usavam pantalonas longas, bem largas e cortadas ao estilo japonês - feitas de custosos materiais: veludo, veludo de Manchester, um tecido fino ou mesmo linho entremeado de fios coloridos - e guarnecidas abundantemente de galões ou vistosas fitas e cordões; a isso acresciam-se pequenas jaquetas de criança que mal chegavam abaixo da cintura, em geral de cores bem claras, só algumas poucas sendo pretas. Os cabelos caíam despenteados em natural desordem sobre os ombros e as costas, e na cabeça portavam um pequeno e estranho gorrinho. Alguns tinham o pescoço totalmente descoberto à maneira dos turcos e gregos modernos, outros, ao contrário, usavam em torno do pescoço e do peito uma pequena peça de linho branco parecendo quase uma gola de camisa, como você, meu querido Rufin, provavelmente já viu em quadros de nossos antepassados. Se bem que essas pessoas parecessem todas muito jovens, sua linguagem era grave e rude, e todos os seus movimentos desajeitados, tendo vários deles uma sombra estreita abaixo do nariz, como se lá houvesse um bigode de pontas levantadas. Muitos tinham, saindo da traseira de seus pequenos casacos, um longo tubo do qual pendiam grandes borlas de seda. Outros haviam retirado estes tubos e atado na sua parte inferior cabaças - pequenas um pouco maiores ou às vezes bastante grandes e de formatos bizarros - das quais eles habilmente sabiam fazer sair nuvens artificiais de vapor, soprando por cima através de um tubinho que terminava em uma ponta extremamente fina. Outros levavam nas mãos espadas largas e reluzentes como se quisessem lançar-se contra o inimigo; outros ainda tinham pendurados nos ombros ou amarrados às costas pequenos recipientes de couro ou folha de Flandres. Você pode muito bem imaginar, meu querido Rufin, que eu, sempre procurando enriquecer meus conhecimentos através de uma cuidadosa observação de todos os novos fenômenos, fiquei estatelado e de olhos fixos nessas estranhas pessoas. Elas se agruparam então ao meu redor gritando com força: 'Filisteu... Filisteu!', prorrompendo em uma horrível gargalhada... Isto me deixou muito aborrecido. Pois, querido Rufin, haveria algo mais ofensivo para um grande erudito do que ser tomado por membro de um povo que há muitos milhares de anos foi abatido a golpes de uma queixada de asno? Controlei-me, com minha dignidade inata, e disse em voz bem alta ao estranho povo à minha volta que eu esperava encontrar-me em um lugar civilizado, e que iria dirigir-me à polícia e aos tribunais para vingar o insulto que me fora dirigido. Nesse momento todos eles passaram a resmungar, e mesmo aqueles que até então ainda não haviam soltado vapor tiraram dos bolsos as máquinas destinadas a esse fim e todos sopraram em meu rosto as grossas nuvens de fumaça que, como só então fui perceber, tinha um cheiro totalmente insuportável que atordoava meus sentidos. A seguir, eles lançaram contra mim uma espécie de maldição, cujas palavras, meu prezado Rufin, eu não quero repetir-lhe, por serem de tal forma medonhas. Eu mesmo só consigo pensar nelas com profundo horror. Finalmente eles me deixaram, debaixo de fortes gargalhadas de escárnio, e eu tive a impressão de ouvir desvanecendo nos ares as palavras 'golpes de azorrague'. Meu cocheiro, que igualmente ouvira e presenciara tudo, torceu as mãos e disse: 'Ah, meu prezado senhor, agora que aconteceu o que aconteceu, não entre de jeito nenhum naquela cidade! Como se diz, nem mesmo um cão aceitaria um pedaço de pão de suas mãos, e o senhor estaria permanentemente ameaçado pelo perigo de ser surr...' Não permiti que o bravo homem terminasse de falar e dirigi meus passos o mais rápido que pude em direção à aldeia mais próxima. Escrevo-lhe tudo isto, meu querido Rufin, sentado no solitário quartinho da única estalagem desta aldeia!... Na medida do possível, vou recolher informações sobre o estranho povo bárbaro que habita aquela cidade. Sobre seus costumes, hábitos, sobre sua língua, etc., eu já consegui que me fossem narradas coisas extremamente singulares e vou contar-lhas fielmente etc., etc."

Como você pode perceber, oh, meu prezadíssimo leitor, alguém pode ser um grande erudito sem ter o menor conhecimento de fatos muito comuns da vida, e entregar-se aos sonhos mais bizarros a respeito de coisas universalmente conhecidas. Ptolomäus Philadelphus tinha estudado na universidade e nem ao menos conhecia estudantes; e não tinha a menor idéia de que, enquanto escrevia a seu amigo sobre um acontecimento que em sua cabeça se transformara em uma aventura das mais inusitadas, estava instalado na aldeia de Hoch-Jakobsheim, a qual, como todos sabem, fica bem próxima à famosa Universidade de Kerepes. O bom Ptolomäus assustou-se ao se deparar com estudantes que prazeirosamente passeavam alegres e bem dispostos pelos campos. Que medo, então, não o teria assaltado caso houvesse chegado a Kerepes uma hora mais cedo e se o acaso o tivesse conduzido para diante da casa de Mosch Terpin, o professor de Ciências Naturais! Centenas de estudantes jorrando para fora teriam-no rodeado em meio a ruidosas disputas etc., e fantasias ainda mais extravagantes assaltariam sua imaginação como resultado dessa confusão, desse tropel.

Pois as aulas de Mosch Terpin eram as mais freqüentadas em toda Kerepes. Ele era, como foi dito, Professor de Ciências Naturais; explicava como chove, troveja, relampeja, por que o Sol brilha durante o dia e a Lua à noite, como e por que a relva cresce, etc., de tal forma que qualquer criança forçosamente o compreenderia. Ele tinha comprimido toda a Natureza em um pequeno e gracioso compêndio de modo a poder comodamente manuseá-la à vontade e retirar dali, como de uma gaveta, a resposta para toda e qualquer pergunta. Seu renome havia inicialmente se estabelecido quando, depois de muitos experimentos físicos, ele teve êxito na descoberta de que a escuridão provém principalmente da ausência de luz. Isto, bem como o fato de que ele sabia converter com muita destreza aqueles experimentos físicos em graciosos espetáculos, e de que praticava divertidas artes de prestidigitação, proporcionavam-lhe aquela incrível afluência. Permita-me, meu benévolo leitor, já que você conhece os estudantes bem melhor do que o famoso erudito Ptolomäus Philadelphus, já que você não compartilha do seu temor fantasioso, que eu o conduza agora para Kerepes, para diante da casa do Professor Mosch Terpin, no momento em que ele acaba de concluir sua aula. Dentre os estudantes jorrando em massa para a rua, há um que cativa imediatamente a sua atenção. Você vê um rapaz formoso, de vinte e três a vinte e quatro anos, em cujos olhos escuros e brilhantes se expressa com eloqüência um vivaz e proeminente espírito interior. Seu olhar quase poderia ser qualificado de ousado, não fosse a sonhadora tristeza que, do modo como se estendia por todo o semblante pálido, assemelhava-se a um véu ocultando os raios ardentes. Seu casaco, de fino tecido preto guarnecido de veludilho, está cortado aproximadamente segundo o antigo feitio alemão, e combina muito bem com a delicada gola de renda resplandecente de brancura, bem como com o barrete de veludo assentado sobre os belos cachos castanhos. Esta vestimenta lhe cai especialmente bem porque ele parece - de acordo com toda a sua natureza, seu decoro no andar e na postura, os traços expressivos de seu rosto - pertencer realmente a um passado belo e inocente e, precisamente por isso, não se deve pensar naquela afetação que surge com freqüência da imitação mesquinha de modelos mal-interpretados para curvar-se a exigências da nossa época, igualmente mal-interpretadas. Este jovem que lhe agrada tanto à primeira vista, amado leitor, não é ninguém mais do que o estudante Balthasar, filho de gente decente e abastada, jovem puro, inteligente, aplicado, de quem pretendo, oh meu leitor, falar-lhe longamente na história que me propus a narrar.

Balthasar deixou a aula do Professor Mosch Terpin e vagou, sério e perdido em pensamentos - como era do seu feitio - rumo ao portão da cidade para dirigir-se, não à quadra de esgrima, mas à adorável florestazinha que dista de Kerepes nem bem umas poucas centenas de passos. Seu amigo Fabian, um belo rapaz de aparência vivaz e disposição análoga, correu em seu encalço e alcançou-o bem próximo ao portão.

- Balthasar! - chamou Fabian bem alto - Balthasar, com que então você quer embrenhar-se novamente na floresta e vagar sozinho como um filisteu melancólico, enquanto rapazes vigorosos se exercitam com galhardia na nobre arte da esgrima!... Eu lhe peço, Balthasar, deixe de uma vez esses seus modos lúgubres e tolos e volte a ser alegre e jovial como era outrora. Venha! Vamos treinar alguns assaltos de esgrima e, se depois disso você ainda quiser sair, então eu irei com você.

- Você tem boas intenções - replicou Balthasar - você tem boas intenções, Fabian, e por isso eu não quero zangar-me consigo por me seguir às vezes, como um possesso, por onde quer que eu ande, estragando muitos prazeres dos quais você não tem a menor idéia. É fato consumado que você pertence àquele estranho tipo de pessoas que tomam todos os que elas vêem vagando solitários por tolos melancólicos, e querem logo tratá-los e curá-los à sua maneira, como aquele cortesão quis fazer com o digno príncipe Hamlet, que deu-lhe uma boa lição no momento em que o homenzinho confessou não saber tocar flauta. Desejo poupá-lo disso, caro Fabian, mas, de resto, gostaria de pedir-lhe do fundo do coração que procure outro companheiro para sua nobre esgrima com floretes e espadas, e que me deixe seguir vagando tranqüilamente pelo meu caminho.

- Não, não - exclamou Fabian rindo - assim você não me escapa, meu caro amigo! Se você não quiser ir comigo à quadra de esgrima, então eu o acompanharei à pequena floresta. É obrigação do amigo fiel alegrá-lo na sua tristeza. Venha, querido Balthasar, venha, se é isso que você quer.

Com isso, tomou o amigo pelo braço e saiu caminhando vigorosamente com ele. Intimamente enfurecido, Balthasar cerrou os dentes e conservou-se em um silêncio taciturno, enquanto Fabian contava de um só fôlego um rol inesgotável de coisas divertidas. Também foram ditas muitas tolices, o que sempre costuma acontecer ao se narrar de um só fôlego coisas divertidas.

Quando finalmente adentraram as frescas sombras da floresta perfumada, quando os arbustos sussurraram como em saudosos suspiros, quando as maravilhosas melodias dos riachos rumorejantes e as canções dos pássaros soaram, espalhando-se para longe e despertando os ecos que respondiam vindos das montanhas, Balthasar parou de súbito e, estendendo os braços até que ficassem bem abertos, como se quisesse envolver amorosamente com eles as árvores e as moitas, exclamou:

- Agora me sinto bem novamente!... Indescritivelmente bem!

Fabian olhou um pouco perplexo para o amigo, como alguém que não consegue entender o que foi dito, ou não sabe como reagir. Balthasar tomou-o então pela mão e exclamou, cheio de arrebatamento:

- Não é verdade, irmão, que agora o seu coração também se abre, que agora também você compreende o bem-aventurado mistério da solidão na floresta?

- Eu não o estou entendendo muito bem, querido, irmão - retrucou Fabian - mas se você acha que um passeio aqui na floresta lhe faz bem, então sou totalmente da mesma opinião. Afinal, não é verdade que também gosto de passear, especialmente em boa companhia, com a qual se pode manter uma conversa sensata e instrutiva? Assim, por exemplo, é um verdadeiro prazer andar pelos campos com o nosso Professor Mosch Terpin. Ele conhece cada plantinha, cada graminha, e sabe como se chama e em que classe se enquadra, e entende dos ventos e do tempo...

- Pare - gritou Balthasar - eu lhe suplico, pare!... Você está tocando em um ponto que me deixaria enraivecido se não houvesse um consolo em outra parte. A maneira como o Professor fala sobre a Natureza despedaça-me o coração. Ou antes, sou possuído por um inquietante pavor, como se visse um demente que, tomando-se por rei e soberano em sua parvoíce afetada, acaricia uma bonequinha de palha feita por ele mesmo e julga estar abraçando sua régia noiva! Seus assim chamados experimentos dão-me a impressão de uma abominável zombaria do Ser divino, cujo sopro, na Natureza, roça-nos a face e estimula em nosso coração os mais profundos e sagrados pressentimentos. Muitas vezes sinto-me tentado a destroçar seus frascos, suas retortas, toda a sua tralha, se não pensasse que um macaco, afinal, não cessa de brincar com fogo enquanto não queimar a pata... Veja, Fabian, esses sentimentos me angustiam, oprimem meu coração durante as aulas de Mosch Terpin, e é certo que nessas ocasiões eu devo parecer a vocês mais melancólico e misantropo do que nunca. Sinto-me então como se as casas fossem desabar sobre minha cabeça, e uma ânsia indescritível me impulsiona para fora da cidade. Mas aqui, aqui meu íntimo logo se enche de uma doce tranqüilidade. Deitado sobre a relva florida, levanto meus olhos para o amplo azul do céu e, acima de mim, acima da floresta exultante, passam nuvens douradas como magníficos sonhos provenientes de um mundo longínquo e cheio de ditosas alegrias!... Oh, Fabian, nesse momento eleva-se de dentro do meu próprio peito um espírito maravilhoso, e eu ouço como ele dita palavras misteriosas às moitas, às árvores, às vagas no riacho da floresta, e não posso expressar o deleite que então trespassa todo o meu ser em um doce e nostálgico estremecimento!

- Ai - exclamou Fabian - ai, lá vem outra vez a velha e eterna conversa de nostalgia e deleite, e árvores e regatos que falam na floresta. Todos os seus versos estão repletos dessas coisas graciosas, que até soam bem agradáveis aos ouvidos e são empregadas com proveito sempre que não se procura dar-lhes um sentido por demais profundo... Mas, meu excelentíssimo melancólico, se de fato as aulas de Mosch Terpin o ofendem e incomodam de modo tão terrível, diga-me então por que diabos você acorre a todas elas, por que você não deixa de comparecer a uma única sequer e, então sim, fica sentado mudo e rígido, com os olhos fechados como que absorto em um sonho?

- Não me pergunte - replicou Balthasar, enquanto baixava os olhos - não me pergunte sobre isso, querido amigo!... Um poder desconhecido atrai-me todas as manhãs para a casa de Mosch Terpin. Eu pressinto meu tormento e mesmo assim não posso resistir, uma sombria fatalidade me arrasta!

- Ha, ha! - riu Fabian em sonora gargalhada - ha, ha, ha, que delicado, que poético, que misterioso! O poder desconhecido que o atrai à casa de Mosch Terpin emana dos olhos azuis-escuros da bela Cândida!... Que você está apaixonado até as orelhas pela graciosa filhinha do Professor, todos nós já sabemos há muito, e por isso desculpamos as suas fantasias e seu jeito amalucado. Afinal, os apaixonados são assim mesmo. Você se encontra no primeiro estágio da doença do amor e tem que passar, nos anos mais maduros de sua mocidade, por todos os trejeitos cômicos e bizarros pelos quais nós - eu e muitos outros - passamos no tempo do colégio sem ter um grande público assistindo. Mas acredite-me, doce coração...

Fabian entrementes havia agarrado outra vez seu amigo Balthasar pelo braço e voltado a caminhar a passos rápidos. Eles acabavam de sair do espesso arvoredo alcançando o largo caminho que atravessava o coração da floresta. Nesse momento Fabian distinguiu ao longe um cavalo que, envolto em uma nuvem de poeira, vinha trotando sem cavaleiro.

- Ei! Ei! - gritou ele, interrompendo sua fala - Ei, ei, lá está um maldito rocim que fugiu em disparada e derrubou seu cavaleiro... Temos que capturá-lo e depois procurar o dono na floresta.

Assim dizendo, ele postou-se bem no meio do caminho.

O cavalo aproximava-se mais e mais, e pareceu então que duas botas de montaria balançavam-se uma de cada lado, para cima e para baixo, enquanto algo escuro se mexia e remexia sobre a sela. Logo à frente de Fabian ressoou um longo e estridente "Prrr... Prrr..." e no mesmo instante um par de botas de montaria voou-lhe em volta da cabeça, e uma coisa pequena, estranha e escura rolou por entre suas pernas. Totalmente imóvel, com o pescoço longamente esticado para frente, o cavalo farejava seu minúsculo patrãozinho, que rolava na areia e finalmente pôs-se de pé a duras penas. A cabeça do pirralho introduzia-se profundamente por entre os ombros altos; ele assemelhava-se - com a excrescência no peito e nas costas, com seu tronco curto e suas longas perninhas de aranha - a uma maçã espetada em um garfo, na qual alguém tivesse talhado uma careta. Quando Fabian viu esse pequeno e estranho monstro em pé diante de si, não conteve uma alta gargalhada. Mas o pequeno, enfiando até os olhos, zangado, o barretezinho que apanhara do chão, perguntou em um tom áspero e muito rouco, enquanto trespassava Fabian com o olhar furioso:

- É este o caminho correto para Kerepes?

- Sim, meu senhor! - respondeu Balthasar meigo e sério, e passou-lhe as botas que acabara de recolher.

Todos os esforços do pequeno para calçar as botas foram vãos; ele emborcava seguidamente e rolava na areia gemendo. Balthasar colocou de pé as duas botas juntas, levantou delicadamente o pequeno e baixou-o, enfiando os dois pezinhos nos invólucros excessivamente largos e pesados. Com modos altivos, uma mão fixa na cintura e levando a outra contra o barrete, o pequeno exclamou:

- Gratias, meu senhor! - e dirigiu-se rumo ao cavalo, tomando os arreios. Todas as tentativas para alcançar o estribo ou escalar o grande animal frustraram-se.

Balthasar, sempre sério e meigo, veio e ergueu o pequeno até os estribos. Provavelmente seu impulso foi demasiado forte, pois mal ele se assentara na sela, já estava caído do outro lado.

- Não seja tão fogoso, queridíssimo Monsieur! - exclamou Fabian, enquanto, novamente, rompia em ruidosa gargalhada.

- Ao diabo com seu queridíssimo Monsieur - berrou furioso o pequeno enquanto batia em suas roupas para tirar o pó. - Eu sou um estudante universitário e, se você também for um, então é uma afronta que esteja rindo na minha cara como um poltrão, e amanhã você terá que bater-se comigo em Kerepes!

- Caramba - exclamou Fabian sempre a rir - caramba, isto é que é um rapaz de qualidades, um homem experiente, tanto no que se refere à coragem quanto ao autêntico comportamento estudantil.

Assim dizendo, ergueu o pequeno para o alto, apesar de este debater-se e espernear, e sentou-o em cima do cavalo que, relinchando alegremente, no mesmo instante saiu trotando com o seu patrãozinho! Fabian segurava seus dois flancos para não sufocar de tanto rir.

- É cruel - disse Balthasar - escarnecer de um ser humano que a Natureza deformou de modo tão horrível, como esse pequeno cavaleiro. Se ele realmente for um estudante você terá de bater-se com ele e, embora isso seja totalmente contrário aos costumes acadêmicos, com pistolas, uma vez que ele não é capaz de manejar nem o florete nem a espada.

- Meu querido amigo Balthasar - disse Fabian - meu querido amigo Balthasar, você mais uma vez está encarando tudo de forma demasiado séria e funesta! Nunca pensei em ridicularizar um ser que nasceu deformado. Mas diga-me, pode um Pequeno Polegar tão cartilaginoso sentar-se sobre um cavalo tão grande a ponto de não conseguir enxergar por sobre seu pescoço? Pode ele enfiar os pezinhos em botas tão absurdamente grandes? Pode ele usar uma túnica apertada com milhares de cordões e galões e borlas, e um barrete de veludo tão estranho? Pode ele adotar um comportamento tão arrogante? Pode ele emitir sons tão barbaramente roucos? Eu pergunto, pode ele fazer tudo isso sem ser com razão ridicularizado como um inveterado poltrão? Mas tenho que ir até lá, tenho que presenciar o alvoroço que vai ocorrer quando o brioso estudante fizer sua entrada na cidade sobre seu soberbo corcel! Com você, não há o que se fazer hoje! Passe muito bem!

A toda pressa, Fabian saiu a correr através do bosque, de volta para a cidade.

Balthasar abandonou o caminho aberto e embrenhou-se na mata mais densa. Lá deixou-se cair sobre um assento de musgo, tomado, ou melhor, subjugado pelos sentimentos mais amargos. Era de fato verdade que ele estava amando a graciosa Cândida, mas tinha encerrado este amor no íntimo de sua alma como um profundo e delicado segredo, guardado de todas as pessoas e até de si mesmo. Assim, quando Fabian falou desse assunto tão sem reservas, tão levianamente, pareceu-lhe que mãos rudes tinham arrancado com atrevida petulância os véus da imagem santa que ele não ousava tocar, e que agora a santa não poderia deixar de se encolerizar com ele próprio para sempre. Sim, as palavras de Fabian soaram-lhe como uma terrível zombaria de todo o seu modo de ser e de seus sonhos mais doces.

- Você - exclamou ele no auge de seu pesar - você me toma, então, por um tolo apaixonado, Fabian! Por um bobo que acorre às aulas de Mosch Terpin para ficar pelo menos durante uma hora debaixo do mesmo teto que a bela Cândida, que vagueia solitário na floresta para ruminar versos lastimáveis endereçados à amada e anotá-los de forma ainda mais lastimável, que danifica as árvores, gravando em seus troncos lisos tolas iniciais, que na presença da jovem não consegue dizer uma só palavra sensata, limitando-se a suspirar e gemer e fazer caretas chorosas como se estivesse sofrendo um acesso de cãibras, que leva diretamente sobre o peito as flores murchas que ela trazia ao regaço, ou ainda a luva que ela perdeu, enfim, que faz mil doidices infantis!... E por isso, Fabian, você me importuna, e por isso todos os rapazes escarnecem de mim, e por isso eu, juntamente com o mundo secreto que se revelou a mim, sou um objeto de chacota.... E a graciosa, encantadora, magnífica Cândida...

Quando ele disse este nome em voz alta, sentiu como se seu coração estivesse sendo trespassado pelo golpe de um punhal em brasa! Ah!... Neste momento uma voz em seu íntimo sussurrou-lhe distintamente que, de fato, só ia à casa de Mosch Terpin por causa de Cândida, que fazia versos para a amada, que gravava seus nomes no tronco das árvores, que emudecia na presença dela, suspirava, gemia, que levava junto ao peito as flores murchas que ela perdeu, e que, por conseguinte, incorria realmente em todas as tolices que Fabian poderia citar-lhe. Só agora ele sentiu em cheio como amava inefavelmente a formosa Cândida, mas sentiu ao mesmo tempo - o que é suficientemente estranho - que até o amor mais puro e forte se manifesta na vida exterior de maneira um pouco estapafúrdia, o que provavelmente se deve à profunda ironia inserida pela Natureza em todos os assuntos humanos. Talvez Balthasar tivesse razão, mas não tinha absolutamente razão ao irritar-se tanto com o assunto. Sonhos que geralmente o envolviam estavam perdidos, as vozes da floresta soavam-lhe como sarcasmo e zombaria; ele correu de volta para Kerepes.

- Senhor Balthasar... mon cher Balthasar - chamaram-no. Ele levantou o olhar e ficou imóvel como que enfeitiçado, pois ao seu encontro vinha o Professor Mosch Terpin conduzindo pelo braço sua filha Cândida. Esta cumprimentou o rapaz, que se transformara em uma rija estátua, com a jovial e amável naturalidade que lhe era peculiar.

- Balthasar, mon cher Balthasar - chamou o professor - você, com efeito, é o mais aplicado, o mais querido de meus alunos!... Oh, meu caro, eu noto que você ama a Natureza com todos os seus prodígios, assim como eu, que sou verdadeiramente louco por ela!... Certamente esteve herborizando em nosso pequeno bosque!... Encontrou algo de proveitoso?... Bem! Temos que travar uma amizade mais sólida!... Visite-me... sempre bem vindo... Poderemos fazer experiências juntos... Já viu minha nova máquina pneumática?... Então, mon cher... amanhã um círculo de amigos irá se reunir em minha casa para degustar chá e pão com manteiga, e para divertir-se em agradáveis conversações, venha ampliá-lo com sua valiosa companhia... Vai ficar conhecendo um jovem encantador, que me foi especialmente recomendado... Bon soir, mon cher... Até logo, meu caro... au revoir... Adeus!... Você virá amanhã para a aula, não é?... Então... mon cher, adieu!

Sem esperar que Balthasar respondesse, o Professor Mosch Terpin já se afastava com sua filha.

Balthasar, em sua consternação, não tinha ousado levantar os olhos, mas os olhares de Cândida queimavam-lhe peito adentro; ele sentia o sopro de seu hálito, e doces estremecimentos agitavam o mais íntimo de seu ser.

Todo seu pesar tinha-se desvanecido, cheio de arrebatamento ele acompanhava com os olhos a graciosa Cândida até que ela desapareceu por detrás das aléias. Lentamente, então, Balthasar retornou ao bosque, para sonhar mais esplendidamente do que nunca.

 

Voltar à Página de Publicações

Voltar à Página de Traduções

 

Voltar à Página Inicial