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E. T. A. HOFFMANN

O Cavaleiro Gluck

Uma recordação do ano de 1809

Tradução de Karin Volobuef

 

Em Berlim, no final do outono, ainda há em geral alguns dias bonitos. O sol surge risonho por detrás das nuvens, e rapidamente a umidade se evapora na tépida brisa que varre as ruas. Nessas ocasiões pode-se vislumbrar uma grande e variadamultidão seguindo por entre as tílias (1) rumo ao Jardim Botânico: dândis, burgueses com suas esposas e os adoráveis pequenos em trajes dominicais, clérigos, judeus, bacharéis, prostitutas, catedráticos, costureiras, saltimbancos, oficiais, etc. Logo todos os lugares no Klaus e no Weber (2) estão ocupados, o café de cenoura (3) está fumegando, os dândis acendem seus charutos, correm conversas e disputas sobre guerra e paz, sobre se outro dia os sapatos da madame Bethmann (4) eram cinzas ou verdes, sobre o Estado mercantil fechado (5) e moedas ruins (6), etc. até tudo dissolver-se em uma ária de Fanchon (7), com a qual uma harpa fora do tom, alguns violinos desafinados, uma flauta tuberculosa e um fagote espasmódico torturam a si mesmos e aos ouvintes. Próximo à balaustrada que separa o recinto do Weber da Heerstraße (8) encontram-se várias mesinhas redondas e cadeiras de jardim; aqui pode-se respirar ar fresco, observar os passantes em suas idas e vindas, ficar distante do fragor cacofônico daquela maldita orquestra: aqui tomo assento e entrego-me aos ágeis caprichos de minha fantasia, que me traz figuras amigas com as quais converso sobre ciência, sobre arte, sobre todas as coisas que devem ser as mais caras ao ser humano. Cada vez mais e mais numerosa flui por mim a multidão a passeio, mas nada me interrompe, nada consegue afugentar meus fantásticos acompanhantes. Somente o execrável trio de uma valsa ignóbil ao extremo arranca-me do mundo dos sonhos. Ouço apenas o esganiçado agudo do violino e da flauta e o baixo roufenho do fagote; eles sobem e descem, aferrando-se um ao outro em oitavas que despedaçam o ouvido, e, involuntariamente, como alguém tomado por uma dor lancinante, eu exclamo:

- Que música infernal! Que oitavas detestáveis!

Ao meu lado alguém murmura:

- Maldita sina! Outra vez um caçador de oitavas!

Levanto os olhos e só agora percebo que um dos lugares à minha mesa havia sido ocupado por um homem que me estava observando fixamente e do qual, de minha parte, não consegui mais desviar os olhos.

Jamais eu vira uma cabeça ou um talhe que tão rapidamente deixassem em mim uma impressão tão profunda. O nariz levemente curvo ligava-se a uma testa larga e elevada, com notáveis protuberâncias acima das sobrancelhas espessas e parcialmente grisalhas, sob as quais os olhos brilhantes sobressaíam com um ardor quase selvagem e juvenil (o homem devia ter mais de cinqüenta anos). O queixo, de contorno suave, fazia um estranho contraste com a boca cerrada, e um sorriso bizarro, causado pelo movimento singular dos músculos das faces descaídas, parecia rebelar-se contra a profunda e melancólica severidade que estava pousada sobre a testa. Só uns poucos cachos grisalhos pendiam atrás das orelhas volumosas e despegadas da cabeça. Uma ampla e moderna sobrecasaca envolvia o talhe alto e delgado. Tão logo o encarei, o homem abaixou os olhos e retornou à atividade com que provavelmente estava entretido quando meu comentário o interrompeu. A tarefa, à qual se entregava com visível prazer, era despejar tabaco de diversos saquinhos em uma grande tabaqueira que tinha diante de si, e umedecê-lo com o vinho tinto de uma garrafinha. A música havia cessado; senti necessidade de dirigir-lhe a palavra.

- Ainda bem que a música parou - eu disse. - Estava insuportável.

O ancião lançou-me um olhar furtivo e esvaziou o último saquinho.

- Antes não tocassem nunca! - retomei a palavra. - O senhor não é da mesma opinião?

- Não tenho opinião alguma - disse ele. - O senhor é músico e conhecedor por profissão...

- O senhor está enganado; não sou nem uma coisa nem outra. Em outros tempos, como parte da boa educação, instruí-me na prática do teclado e na realização do contínuo (9), e naquela época disseram-me, entre outras coisas, que nada produz um efeito tão desagradável como a voz grave seguindo a voz aguda em oitavas. Aceitei-o então com base na autoridade, mas mais tarde nunca me faltaram oportunidades para comprová-lo.

- Verdade? - interrompeu-me, levantou-se e caminhou com passos lentos e comedidos até os músicos e, enquanto andava, por diversas vezes dirigiu o olhar para o alto e bateu com a mão espalmada contra a testa como se estivesse tentando recordar algo. Vi como conversava com os músicos, os quais tratava com majestosa superioridade. Retornou e, mal tomara assento, começaram a tocar a abertura da Ifigênia em Áulida (10).

Com os olhos semicerrados (11), os braços entrelaçados sobre a mesa, ele ouvia o Andante; com um leve movimento do pé esquerdo assinalava a entrada das vozes. De repente ergueu a cabeça e rapidamente olhou ao redor, a mão esquerda repousava com os dedos estirados sobre a mesa como se estivesse sustentando um acorde ao teclado, a mão direita erguia-se para o alto: sua postura era a de um regente indicando à orquestra a mudança de andamento. A mão direita se abaixa e tem início o Allegro! Um rubor vívido espalha-se sobre suas faces pálidas, as sobrancelhas unem-se sobre a testa franzida, uma fúria interior incendeia o olhar selvagem com um fogo que vai progressivamente consumindo o sorriso que estivera pairando nos lábios entreabertos. Reclina-se então para trás, as sobrancelhas se erguem, o movimento dos músculos nas faces retorna, os olhos reluzem, uma dor profunda em seu íntimo dissolve-se num prazer que vai se apossando de todas as suas fibras, estremecendo-as em convulsões, sua respiração é profunda, a testa está coberta de suor. Ele indica a entrada do tutti e outras passagens importantes; sua mão direita não abandona a marcação do compasso, com a esquerda tira seu lenço do bolso e passa-o pelo rosto. Assim insuflava vida na esquelética abertura executada por aquele punhado de violinos, cobrindo-a de carne e cores. Eu podia ouvir o queixume delicado e desvanecente que a flauta fazia subir aos ares quando o turbilhão dos violinos e baixos se acalmou e calou-se o estrondo dos tímpanos; podia ouvir os suaves sons tocados pelo violoncelo, pelo fagote, que mergulham o coração em uma indizível melancolia: o tutti retorna, o uníssono (12) prossegue majestoso e colossal como um gigante, o queixume abafado extingue-se sob seus passos esmagadores.

A abertura chegara ao fim; o homem deixou cair os braços e permaneceu sentado com os olhos fechados, como alguém esgotado por um esforço excessivo. Sua garrafa estava vazia: enchi seu copo com vinho da Borgonha que nesse meio tempo eu havia pedido. Ele suspirou profundamente, parecia acordar de um sonho. Convidei-o a beber; ele fê-lo sem cerimônias e, esvaziando o copo cheio com um único gole, exclamou:

- Estou satisfeito com a apresentação! A orquestra tocou com dedicação!

- E, mesmo assim - tomei a palavra - mesmo assim, apenas foram reproduzidos os débeis contornos de uma obra prima concebida nas mais vivas cores.

- Está correta minha dedução de que o senhor não é de Berlim?

- Perfeitamente correta; somente de tempos em tempos venho para cá.

- O vinho da Borgonha está bom; mas começa a fazer frio.

- Então por que não entramos no café e lá esvaziamos a garrafa?

- Boa sugestão. Não o conheço, mas em contraposição o senhor também não me conhece. Não perguntemos nossos nomes; nomes por vezes são um incômodo. Bebo vinho da Borgonha, ele não me custa nada, apreciamos a companhia um do outro, e isto basta.

Ele disse tudo isso com afável cordialidade. Entramos no café; quando sentou-se, entreabriu a sobrecasaca, e percebi surpreso que por baixo dela usava um colete bordado com cauda longa, calças de veludo negro e uma espada de prata bem pequenina. Ele voltou a fechar a sobrecasaca abotoando-a cuidadosamente.

- Por que me perguntou se sou de Berlim? - comecei a conversa.

- Porque nesse caso eu me veria forçado a recusar sua companhia.

- Isso soa como um enigma.

- De forma alguma, tão logo eu lhe diga que sou... bem, que sou um compositor.

- Continuo sem entendê-lo.

- Então perdoe minha expressão de agora há pouco; pois percebo que o senhor nada sabe acerca de Berlim e dos berlinenses.

Ele levantou-se e deu algumas passadas agitadas para lá e para cá; depois foi até a janela e cantou, de forma quase inaudível, o coro das sacerdotisas da Ifigênia em Táurida, e de quando em quando, nas entradas do tutti, batia na vidraça da janela. Com espanto notei que introduzia alguns contornos diferentes na melodia, que impressionavam pela sua força e novidade. Deixei que continuasse, sem interrompê-lo. Quando terminou, retornou ao seu lugar. Perturbado com o comportamento extravagante daquele homem e com as fantásticas demonstrações de seu raro talento musical, permaneci calado. Passado algum tempo, ele quebrou o silêncio:

- O senhor nunca compôs?

- Sim, aventurei-me nesta arte. Entretanto, tudo que escrevia - no calor do entusiasmo, conforme acreditava - mais tarde parecia-me insípido e aborrecido. Então abandonei a composição.

- O senhor fez mal, pois o fato de rejeitar seus próprios experimentos já é um indício considerável de seu talento. Estudamos música quando pequenos porque mamãe e papai assim o desejam; a partir de então lançamo-nos a fazer gemer o piano e o violino; contudo, sem que se perceba, os sentidos tornam-se mais receptivos para a melodia. Talvez nossa primeira criação própria seja o tema, já quase esquecido, de uma pequena cantiga que entoamos de maneira diferente, e este embrião, a duras penas alimentado da criação alheia, pode prosperar até tornar-se um gigante que absorve tudo ao seu redor e o transforma em sua medula e sangue! Ah, é impossível chegar-se a adivinhar, mesmo remotamente, as milhares de formas pelas quais somos levados a compor! É como uma larga Heerstraße, onde toda sorte de gente volteia e exulta e grita: "Nós somos eleitos! Já alcançamos nosso propósito!" Ora, o portão de marfim leva-nos ao reino dos sonhos; poucos avistam o portão, menos ainda atravessam-no! A paisagem ali é de fábula. Pairam para lá e para cá vultos extravagantes, mas dotados de gênio, uns mais do que outros. Eles não freqüentam a Heerstraße: somente podem ser vislumbrados atrás do portão de marfim. É difícil sair desse reino; tal como diante do castelo de Alcina os monstros bloqueiam a passagem (13)... tudo rodopia... tudo gira... Muitos no reino dos sonhos submergem no sonho... e se dissipam no sonho; eles não lançam mais sombra, caso contrário, a sombra os faria perceber o raio de luz que atravessa o reino. Apenas uns poucos, despertos do sonho, erguem-se e atravessam o reino dos sonhos... Estes alcançam a verdade, e o momento supremo chegou: o contato com o eterno, com o indizível! Que se mire o Sol, ele é a tríade da qual os acordes, qual estrelas, lançam seus raios e nos enredam numa teia de fios de fogo. Estamos envolvidos num casulo de fogo como uma crisálida até que a psique levante vôo até o Sol.

Ao dizer as últimas palavras ergueu-se de um salto, levantou o olhar, lançou a mão para o alto. Sentou-se novamente e esvaziou num instante o copo que lhe fora servido. Seguiu-se um silêncio que eu não quis quebrar para não sobressaltar aquele homem extraordinário. Por fim, ele continuou já mais calmo:

- Quando estive no reino dos sonhos, fui atormentado por um sem número de aflições e temores! Estava escuro e eu era intimidado pelas feições distorcidas de monstros que me assaltavam e, ora me afundavam nas profundezas do mar, ora me erguiam às alturas. Então raios de luz atravessaram a noite, e os raios de luz eram sons que me abraçavam com amoroso clarão. Despertei de minhas aflições e vislumbrei um olho grande e resplandecente, que fitava um órgão e, enquanto ele assim fitava o instrumento, emergiam sons que cintilavam e se entrelaçavam em acordes magníficos, como eu jamais os imaginara. Melodias jorravam para cima e para baixo, e eu nadava nessa corrente e estava prestes a afundar quando o olho fitou-me e elevou-me por sobre o bramido das ondas. Novamente caiu a noite, e dois colossos em armaduras luzidias vieram ao meu encontro: a nota fundamental e a quinta! Agarram-me, mas o olho sorriu: ‘Eu sei o que inunda seu peito de nostalgia; a suave e meiga donzela, a terça, irá afrontar os gigantes; você ouvirá sua doce voz e irá me ver outra vez, e minhas melodias serão suas.

Deteve-se.

- E o senhor voltou a ver o olho?

- Sim, voltei a vê-lo! Por anos a fio fiquei suspirando no reino dos sonhos... Lá... isso mesmo, lá! Estava sentado em uma vale esplêndido e prestava atenção ao canto das flores. Somente um girassol estava calado e deixava pender, tristonho, sua corola rumo ao chão. Laços invisíveis puxaram-me até ele... o girassol ergueu a cabeça... a corola entreabriu-se e de dentro dela o olho fixou-me radiante. Então os sons, qual raios de luz, emanavam de minha cabeça até as flores, que os sorviam com avidez. As pétalas do girassol foram aumentando mais e mais... chamas irradiavam delas e cingiam-me... o olho desaparecera e eu na corola.

Com estas últimas palavras ergueu-se de súbito e saiu do café com passos apressados, juvenis. Esperei em vão pelo seu retorno; acabei decidindo voltar à cidade.

Encontrava-me já nas imediações da Porta de Brandeburgo, quando distingui na escuridão uma figura esguia dirigindo-se para lá, e reconheci meu singular companheiro. Dirigi-lhe a palavra:

- Por que saiu tão bruscamente?

- Estava ficando quente demais e a eufonia (14) começou a soar.

- Não consigo entendê-lo.

- Tanto melhor.

- Tanto pior, pois eu bem que gostaria de compreendê-lo.

- Será possível que o senhor não esteja escutando nada?

- Não.

- Passou! Prossigamos. Normalmente não aprecio muito ter companhia, mas... o senhor não compõe... tampouco é de Berlim.

- Não consigo ver por que o senhor faz um juízo tão ruim dos berlinenses. Aqui, onde a arte é respeitada e onde as pessoas se dedicam a ela com grande intensidade, eu imaginaria que um homem com o seu espírito artístico deveria sentir-se perfeitamente à vontade!

- Está enganado! É para meu tormento que estou condenado a vagar aqui, qual alma errante, em terra deserta.

- Em terra deserta: aqui, em Berlim?

- Sim, está deserto ao meu redor, pois jamais encontrei uma alma irmã. Estou só.

- Mas e os artistas? E os compositores?

- Fora com eles! São uns critiqueiros, nada além de critiqueiros. Seu detalhismo não conhece limites; cada vão é esquadrinhado apenas para encontrar uma mísera idéia; de tanto tagarelar sobre arte, sobre o sentido da arte e sobre nem sei mais o quê não conseguem criar nada. E, se algum dia fazem vir à luz algumas idéias, então um frio terrível dá provas de sua imensa distância do Sol: é uma obra da Lapônia.

- Seu juízo parece-me severo em demasia. Ao menos as magníficas apresentações no teatro deveriam satisfazê-lo.

- Certa vez consegui vencer meus escrúpulos e fui novamente ao teatro a fim de assistir à ópera de um jovem amigo - como é mesmo o nome dela? Ah, o mundo inteiro está contido nesta ópera! Por entre a variada multidão de pessoas bem vestidas passam os espíritos do inferno; tudo aí tem voz e a música é majestosa. Diabos, é do Don Juan (15) que estou falando! Entretanto, não consegui permanecer no teatro além da abertura, a qual foi fustigada prestissimo e sem pé nem cabeça. E isso embora eu me tivesse preparado com rezas e jejum, pois sabia que a eufonia é por demais afetada pelas massas e com isso se torna impura.

- Confesso que, inexplicavelmente, as obras primas de Mozart em geral são tratadas aqui com desleixo; no entanto, as obras de Gluck com certeza têm sido objeto de apresentações que lhe fazem jus.

- O senhor acha? Certa vez quis ouvir a Ifigênia em Táurida (16). Ao entrar no teatro, ouço que estão tocando a abertura da Ifigênia em Áulida. Hum, penso, enganei-me: é esta Ifigênia que está sendo apresentada! Grande é a minha surpresa quando em seguida tocam o andante que dá início à Ifigênia em Táurida, seguido da tempestade. Vinte anos separam uma da outra! Todo o efeito e toda a exposição da tragédia, construída com tanto esmero, estava perdida. O mar sereno... uma tempestade... os gregos são lançados à terra, lá está a ópera! - Onde já se viu algo assim? Então o compositor criou a abertura a esmo, de modo que se pode tocá-la, qual musiquinha de trombeta, onde e quando se quiser (17)?

- Reconheço perfeitamente o engano desastrado. Não obstante, fazem de tudo para honrar as obras de Gluck.

- Ai, ai, de fato! - disse, brevemente, e deu um sorriso amargo, cada vez mais e mais carregado de amargor. De repente levantou-se, e foi impossível fazer com que se detivesse por mais tempo. De um momento para outro tinha como que desaparecido, e por vários dias seguidos procurei-o em vão no Jardim Botânico.

 

Passaram-se vários meses quando, numa noite fria e chuvosa, eu ficara retido numa área afastada da cidade e estava agora rumando apressado para minha casa na Friedrichsstraße (18). Meu caminho passava junto ao teatro; a música sonora, os trompetes e tímpanos lembraram-me que hoje estava sendo apresentada a Armida de Gluck, e eu ia justamente entrar no teatro quando minha atenção foi chamada para um curioso monólogo mantido próximo às janelas, onde se pode ouvir praticamente cada som da orquestra.

- Agora entra o rei (19)... estão tocando a marcha... Oh, toquem, tímpanos, toquem!... com bastante vivacidade! Deveras, deveras, hoje precisam tocá-lo onze vezes... caso contrário, o impulso não terá impulso suficiente. Ha, ha... maestoso... arrastem-se, meninos... vejam só, um figurante ficou preso pelo laço do sapato... isso mesmo, pela décima segunda vez! e sempre acentuando a dominante... Oh, forças eternas, isso não termina nunca! Agora ele faz seu agradecimento... Armida humildemente agradece... Mais uma vez? Claro, ainda faltam dois soldados! Agora tropeçam pelo recitativo adentro. - Qual será o espírito malévolo que me manteve preso aqui?

- A prisão acabou - exclamei. - Venha!

Sem pestanejar tomei pelo braço meu singular companheiro do Jardim Botânico - pois ele era o homem que falava sozinho - e levei-o comigo para longe. Ele parecia surpreso e acompanhava-me em silêncio. Já estávamos na Friedrichsstraße quando, de repente, ele estacou.

- Eu conheço o senhor - disse. - O senhor estava no Jardim Botânico... conversamos muito... tomei bastante vinho... exaltei-me... depois disso a eufonia soou ao longo de dois dias... tive muito o que agüentar... agora passou!

- Estou alegre por o acaso ter-me feito reencontrá-lo. Permita que nos conheçamos melhor. Não moro longe daqui; o senhor não gostaria...

- Não quero nem posso ir à casa de ninguém.

- Não, o senhor não fugirá de mim; irei acompanhá-lo.

- Então terá de caminhar comigo ainda algumas centenas de passos. Mas o senhor não ia ao teatro?

- Pretendia assistir à Armida, mas no momento...

- Então agora o senhor ouvirá Armida! Venha!

Em silêncio subimos a Friedrichsstraße; logo ele entrou numa transversal e eu mal conseguia segui-lo, tão ligeiro descia pela rua, até que por fim parou diante de uma casa de aspecto mal cuidado. Teve que bater muitas vezes antes que alguém finalmente viesse abrir a porta. Tateando na escuridão alcançamos a escada e um aposento no andar superior, cuja porta meu guia fechou cuidadosamente. Ouvi ainda uma segunda porta sendo aberta; logo depois ele chegou com uma vela acesa e não foi pequeno o meu assombro ao vislumbrar a singular guarnição do aposento. Cadeiras ricamente adornadas à moda antiga, um relógio de parede com caixa dourada, e um espelho amplo e maciço davam ao conjunto o aspecto sombrio de luxo decadente. No centro havia um pequeno piano, em cima dele um grande tinteiro de porcelana e algumas folhas de papel pautado para música. Um olhar mais atento para esses apetrechos de compositor, entretanto, persuadiu-me de que há muito tempo nenhum deles era usado para compor, pois o papel estava totalmente amarelado e o tinteiro coberto por espessa teia de aranha. O homem foi até um armário que ficava no canto do aposento e que eu ainda não divisara, e quando entreabriu o cortinado pude ver uma fileira de livros de bela encadernação e inscrições douradas: Orfeu, Armida, Alceste, Ifigênia (20), etc., enfim, à minha frente encontravam-se reunidas as obras-primas de Gluck.

- O senhor possui as obras completas de Gluck? - exclamei.

Ele não respondeu, mas sua boca torceu-se num sorriso convulsivo, e o movimento dos músculos nas faces descaídas desfigurou neste momento o rosto transformando-o numa careta horripilante. Mantendo fixado em mim seu olhar taciturno, retirou um dos livros - era Armida - e caminhou solenemente até o piano. Apressei-me em abri-lo e em levantar o atril que estava abaixado; ele pareceu ver isso com satisfação. Entreabriu o livro, e - quem seria capaz de descrever minha perplexidade? - avistei folhas com pentagramas, nas quais, porém, não havia uma nota sequer escrita.

Ele foi o primeiro a falar:

- Agora tocarei a abertura! Vire as páginas, e faça-o no momento certo!

Prometi fazê-lo, ao que ele começou a tocar de forma magnífica e magistral, com acordes cheios, o majestoso Tempo di Marcia com o qual principia a abertura. Tocava de forma quase fiel ao original, mas no Allegro apenas estavam entremeados as idéias principais de Gluck. Introduzia tantos volteios geniais que meu espanto não parava de crescer. Em especial, suas modulações eram impressionantes sem se tornarem estridentes, e ele sabia acrescentar às simples idéias principais tantas colorações melódicas que aquelas pareciam retornar com um feitio sempre novo, rejuvenescido. Seu rosto estava em brasa; ora as sobrancelhas se franziam e uma fúria longamente refreada estava prestes a irromper, ora os olhos ficavam embaçados de lágrimas de profunda melancolia. Às vezes, quando ambas as mãos trabalhavam criando colorações artísticas, ele cantarolava o tema com uma agradável voz de tenor; além disso, ele sabia imitar com a voz, de maneira muito especial, o som surdo do tímpano golpeado. Acompanhando seu olhar, eu ia diligentemente virando as páginas. A abertura havia chegado ao fim e, esgotado, ele resvalou para o encosto da cadeira com os olhos cerrados. Mas sem demora recobrou ânimo e, virando com presteza várias páginas em branco do livro, disse-me com voz abafada:

- Tudo isso, meu senhor, eu escrevi quando retornei do mundo dos sonhos. Mas eu revelei o mistério sagrado aos ímpios, e uma mão gelada tocou nesse coração em brasa! Isso me quebrantou; então fui amaldiçoado a vagar dentre os ímpios, qual alma errante e sem forma, a fim de que ninguém me reconheça até o girassol me erguer novamente até o eterno... Ah... agora cantemos a cena da Armida!

E ele cantou a cena final da Armida com uma expressão que tocou profundamente meu íntimo. Também aqui ele se desviava consideravelmente do próprio original: mas a sua música modificada era, por assim dizer, a cena de Gluck numa potência mais elevada. Tudo o que pode exprimir ódio, amor, desespero, delírio com os mais fortes traços, ele resumia com ímpeto em sons. Sua voz parecia a de um jovem, pois das profundezas mais abafadas avolumava-se até chegar à força mais penetrante. Todas as minhas fibras tremiam; eu estava fora de mim. Quando terminou, abracei-o efusivamente e exclamei com voz sufocada:

- O que é isto? Quem é o senhor?

Ele levantou-se, lançou-me de alto a baixo um olhar sério e penetrante; mas quando quis fazer mais perguntas ele havia desaparecido pela porta levando consigo a luz e deixando-me na escuridão. Passaram-se quase quinze minutos; eu já perdia a esperança de revê-lo e, orientando-me pela posição do piano, procurava abrir a porta, quando de súbito ele voltou carregando a vela na mão e usando um traje de gala bordado, um faustoso colete, espada à cintura.

Fiquei petrificado; ele caminhou de forma solene em minha direção, delicadamente deu-me a mão e disse com um sorriso singular:

- Eu sou o cavaleiro Gluck!

 

(A tradução contou com a consultoria musical de José Oscar Marques)

 

Notas:

  1. Unter den Linden ("Sob as tílias") é uma famosa avenida no centro de Berlim. (N. T.)
  2. Klaus e Weber eram cafés famosos que funcionavam no Jardim Botânico. (N. T.)
  3. O bloqueio continental imposto por Napoleão impedia a entrada de grãos de café, o que obrigou a população a buscar meios alternativos para fazer a bebida. (N. T.)
  4. Friederike Auguste Caroline Bethmann (1760-1815), atriz famosa. (N. T.)
  5. Em sua obra O Estado mercantil fechado (Der geschlossene Handelsstaat, 1800), o filósofo Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) defende uma sociedade utópica, organizada segundo ideais socialistas e amparada num Estado nacionalista. (N. T.)
  6. Moedas cunhadas em metal precioso, cujo peso foi adulterado por falsificadores (que, por exemplo, limaram a moeda, retirando-lhe uma parte do ouro ou prata) e, conseqüentemente, não corresponde mais ao valor original. (N. T.)
  7. A opereta Fanchon de Friedrich Heinrich Himmel (1765-1814), com texto de August Kotzebue (1761-1819), foi uma peça bastante apreciada na época. Sua primeira apresentação deu-se em 1799. (N. T.)
  8. "Rua do Exército" (Straße significa "rua" em alemão). (N. T.)
  9. Generalbaß, ou, em italiano, basso continuo, é a linha melódica da voz grave acrescida de cifras que representam os acordes. Fazia parte da antiga educação musical que o tecladista aprendesse a improvisar os acordes cifrados com a mão direita no momento da execução da peça. Essa era uma prática musical já há muito tempo em desuso na época em que se passa o conto, e, ao mencioná-la, Hoffmann está revelando a natureza antiquada das concepções musicais do narrador. ((N. de J. O. M.)
  10. A ópera Iphigénie en Aulide, de Christoph Willibald Gluck (1714-1787), é de 1774 e segue de perto o texto da famosa peça de Eurípedes (405 a. C.). Otto Maria Carpeaux comenta em Uma nova história da música: "Os contemporâneos, como Heinse, e os primeiros românticos, como E. T. A. Hoffmann, foram fortemente impressionados pela expressividade da música de Gluck. A famosa abertura de Iphigénie en Aulide, que pertence ao repertório dos nossos concertos sinfônicos como supremo exemplo de tranqüila beleza clássica, inspirou-lhes uma tempestade de sentimentos trágicos." (N. T.)
  11. Em todo este parágrafo ecoam referências a Le neveu de Rameau (1760-1772?), de Denis Diderot, uma das leituras preferidas de Hoffmann. A tradução para o alemão, de Goethe, saiu publicada em 1805. (N. T.)
  12. Note-se que em toda essa passagem em uníssono ocorrem as oitavas paralelas contra as quais o narrador se insurgira anteriormente. O que aqui se mostra é que meras regras acadêmicas podem perfeitamente ser desrespeitadas no interesse da grande arte. (J. O. M.)
  13. Em Orlando furioso (1516), canto 6, estrofes 61-67, de L. G. Ariosto (1474-1533), Ruggiero é detido ao pé do castelo por monstros que o atacam mas que ele acaba derrotando. (N. T.)
  14. Há estudiosos de Hoffmann, a exemplo de Georg Ellinger, que interpretam "eufonia" como uma referência à inspiração ou ao poder criador do músico. Já outros estudiosos, dentre os quais Hans v. Müller, entendem a eufonia ouvida pelo personagem como uma alucinação auditiva. (N. T.)
  15. Don Giovanni (1787), ópera de W. A. Mozart (1756-1791). O fascínio de Hoffmann por Mozart fê-lo escrever um conto sobre esta ópera: Don Juan (1813). (N. T.)
  16. Iphigénie en Tauride (1779), inspirada por Eurípedes (412 a. C.). Digna de nota ainda é a Ifigênia em Táurida de Goethe, escrita numa versão em prosa (1779) e noutra em verso (1786), e que é considerada uma das obras máximas do classicismo alemão. (N. T.)
  17. Conforme indicações de Georg Ellinger, Hoffmann faz referência aqui à situação que de fato reinava nos palcos de ópera em Berlim naquela época. (N. T.)
  18. Em sua segunda estadia em Berlim (1807-1808) Hoffmann morou na Friedrichsstraße nº 179. (N. T.)
  19. Hidraot faz sua entrada na segunda cena do primeiro ato. (N. T.)
  20. Orfeo ed Euridice (1762), Armida (1777), Alceste (1767), Iphigénie en Aulide (1774), Iphigénie en Tauride (1779). (N. T.)

 

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