O gato ruivo

Luise Rinser

Tradução de Karin Volobuef

 

Eu sempre tenho de pensar naquele diabo de gato ruivo, e não sei se foi certo o que fiz. Tudo começou quando estava sentado em nosso jardim, no monte de pedras ao lado da cratera aberta por uma bomba. Este monte de pedras é a parte maior de nossa casa. A menor ainda está de pé, e é aí que nós moramos, eu e mamãe e Peter e Leni, que são meus irmãos menores. Lá estou, então, sentado sobre as pedras, a grama já cresce por toda parte, e as urtigas e outras plantas. Estou segurando na mão um pedaço de pão que já está duro, mas minha mãe diz que pão velho faz mais bem do que o fresco. Na verdade ela diz isso porque acredita que o pão velho precisa ser mastigado por mais tempo e, com isso, fica-se satisfeito com menos. Não é o que acontece comigo. De repente, um naco cai no chão. Eu me abaixo, mas no mesmo instante uma pata vermelha sai de dentro da urtiga e fisga o pão. Foi tão rápido, que nada pude fazer além de ficar olhando feito bobo. E nesse momento vejo que há um gato agachado entre as urtigas, ruivo como uma raposa e muito magro. "Maldito bicho", digo, e arremesso uma pedra em sua direção. Eu não queria acertar o gato, apenas afugentá-lo. Ainda assim devo tê-lo acertado, pois ele gritou, só uma única vez, como uma criança. Mas não se mexeu de seu lugar. Aí lamentei ter atirado e comecei a chamá-lo. Mas não saiu do meio das urtigas. Ele respirava ofegante. Eu podia ver como o pêlo ruivo sobre a barriga se erguia e abaixava. Ele ficava me olhando com seus olhos verdes. Perguntei-lhe então: "O que você quer, afinal?" Isso era maluco, pois ele não é uma pessoa com quem se pode conversar. Aí fiquei zangado com ele e também comigo, e eu simplesmente não olhei mais para lá e engoli meu pão bem rápido, com dificuldade. O último bocado, ainda era um pedaço grande, eu joguei para ele e fui embora com muita raiva.

No jardim da frente, lá estavam Peter e Leni e estavam cortando vagens. Tinham enchido a boca com feijões verdes que faziam um rangido forte, e Leni perguntou em voz bem baixa se eu ainda tinha um pedacinho de pão. "Ora", respondi, "você ganhou um pedaço tão grande quanto o meu, e você tem apenas nove e eu treze. Os maiores precisam de mais." - "Claro", ela falou, mais nada. Peter então disse: "É porque ela deu o pão dela para o gato." - "Que gato?", perguntei. "Ah", diz Leni, "veio aí um gato, um gato ruivo, parecia uma raposinha e estava tão magro. Ficava sempre olhando para mim quando eu queria comer meu pão." - "Idiota", eu disse zangado, "se nem nós mesmos temos nada para comer." Mas ela apenas deu de ombros e rapidamente voltou os olhos para Peter, ele estava com o rosto vermelho, e estou certo de que ele também deu seu pão para o gato. Aí fiquei realmente aborrecido e precisei afastar-me.

Quando chego na avenida, lá está parado um automóvel americano, um carro bem grande e comprido, um Buick, acho, e o motorista me pergunta como chegar à câmara municipal. Perguntou em inglês, e afinal de contas eu sei um pouco de inglês. "The next street", respondi, "and then left and then" - diretamente em frente não sabia como dizer, por isso eu indiquei com a mão, e ele me compreendeu. - "And behind the church is the marketplace with the Rathaus." Acho que isso foi muito bem dito em americano, e a mulher dentro do carro deu-me algumas fatias de pão branco, bem branquinho, e, quando o abro, no meio tem frios, e em grossas camadas. Imediatamente corri para casa com o pão. Quando entrei na cozinha os dois menores rapidamente esconderam algo embaixo do sofá, mas mesmo assim eu vi. Era o gato ruivo. E sobre o chão havia um pouco de leite derramado, e nesse momento eu percebi tudo. "Vocês devem estar malucos", gritei, "esqueceram que temos apenas meio litro de leite desnatado por dia, e isso para quatro pessoas." E puxei o gato debaixo do sofá e o joguei pela janela. Os dois pequenos não disseram uma palavra. Então cortei o pão branco americano em quatro pedaços e escondi o pedaço para mamãe no armário da cozinha.

"Onde você conseguiu isso?" eles perguntaram com jeito amedrontado. "Roubei", disse, e saí. Eu apenas quis dar uma olhada se não haveria pedaços de carvão na rua, pois acabara de passar o carro de carvão e eles às vezes perdem alguma coisa. O gato ruivo estava sentado no jardim e ergueu os olhos para mim. "Vá embora", disse e bati com o pé em sua direção. Mas ele não foi embora. Apenas abriu seu pequeno focinho e fez: "Miau". Não gritou como outros gatos, somente fez isso assim, não consigo explicá-lo. Enquanto isso ele me olhava muito fixamente com os olhos verdes. Aí joguei para ele com raiva um naco do pão americano. Mais tarde me arrependi.

Quando chego na rua já há dois outros, maiores do que eu, eles tinham recolhido o carvão. Então só passei por eles. Tinham enchido um balde inteiro. Sorrateiramente cuspi dentro dele. Se não tivesse acontecido aquilo com o gato, eu teria conseguido tudo para mim. E teríamos podido cozinhar um jantar inteiro com o carvão. Eram pedaços tão bonitos e brilhantes. Em compensação, mais tarde encontrei um carro com batatas amadurecidas antes da época, aí dei um pequeno empurrão e algumas rolaram para o chão e depois mais umas tantas. Coloquei-as nos bolsos e no boné. Quando o motorista se virou, eu disse: "O senhor está perdendo suas batatas." Então fui depressa para casa. Mamãe estava sozinha lá, e, em seu colo, o gato ruivo. "Com mil diabos", eu disse, "a criatura está aqui outra vez?" - "Não seja assim tão rude", mamãe disse, "este gato não tem dono, e quem sabe há quanto tempo não come. Veja só como está magro." - "Nós também estamos magros", respondi. "Dei-lhe um pouquinho do meu pão", ela disse e me olhou de soslaio. Eu pensei nos nossos pães e também no leite e no pão branco, mas dizer eu não disse nada. Então cozinhamos as batatas, e mamãe estava contente. Mas onde eu as havia conseguido ela não perguntou. Não me importo, ela bem que poderia ter perguntado. Mais tarde mamãe tomou seu café preto mesmo, e todos ficaram olhando a besta ruiva bebendo o leite. Depois o gato finalmente pulou pela janela. Mais do que depressa eu a fechei e respirei verdadeiramente aliviado. Logo cedo, às seis, fui para a fila para conseguir verduras. Quando chego em casa às oito, os pequenos estão à mesa do café da manhã e, entre eles, sobre uma cadeira, está o bicho agachado devorando pão amolecido do pires de Leni. Após alguns minutos, chega mamãe, que tinha estado na fila do açougue desde as cinco e meia. O gato logo pula para junto dela, e quando mamãe pensa que não estou olhando deixa cair um pedaço de salsicha. Era uma salsicha feia, acinzentada, dessas que podem ser compradas sem cartela de racionamento, mas nós também teríamos gostado de colocá-la no pão, isso mamãe deveria saber. Engulo minha raiva, pego o boné e saio. Tirei a velha bicicleta do porão e saí da cidade. Lá há um laguinho com peixes. Não tenho anzol, apenas uma vara na qual estão fincados dois pregos pontudos, é com ela que tento fisgar os peixes. Já tive sorte várias vezes, e hoje também. Ainda não são dez horas e já tenho dois bem respeitáveis, suficientes para um almoço. Vou para casa o mais rápido que posso, e lá deixo os peixes sobre a mesa da cozinha. Desço somente por um momento ao porão e conto para mamãe, hoje é dia dela lavar roupa. Ela logo sobe comigo. Só que agora havia apenas um peixe, e justamente o menor. E, no parapeito da janela, lá está o diabo ruivo e está devorando o último bocado. Fico com tanta raiva que arremesso um pedaço de madeira contra ele, e de fato o acerto. Ele rola do parapeito, e ouço como cai feito um saco no jardim. "Aí está", digo, "isso deve ser o bastante para ele." Mas aí mamãe me dá uma bofetada tão forte que faz estalo. Tenho treze anos e com certeza não apanho mais desde os cinco. "Você maltrata animais", grita mamãe, pálida de tanta raiva comigo. Não pude fazer nada além de ir embora. O almoço acabou sendo salada de peixe, com mais batata do que peixe. Em todo caso, ficamos livres da besta ruiva. Mas ninguém pense que foi melhor assim. Os pequenos correram pelos jardins chamando sem parar pelo gato, e mamãe colocava todas as noites uma tigelinha com leite diante da porta e me olhava cheia de repreensão. E aí eu mesmo comecei a procurar em todos os cantos pelo bicho, afinal ele poderia estar caído em algum lugar, doente ou morto. Três dias depois, porém, o gato já estava de volta. Mancava e tinha uma ferida na perna, na perna direita da frente, isso era da lenha que eu arremessara. Mamãe fez um curativo, e também deu algo para ele comer. Desse dia em diante ele veio todos os dias. Não houve uma refeição sem o bicho ruivo, e nenhum de nós podia ocultar qualquer coisa dele. Mal alguém estava comendo algo e lá já estava ele sentado olhando fixamente. E todos nós lhe dávamos o que ele queria, eu também. Embora estivesse furioso. Ele foi ficando cada vez mais gordo, e na verdade era um gato bonito, acho. E então veio o inverno de quarenta e seis para quarenta e sete. Aí realmente mal tínhamos o que comer. Durante algumas semanas não havia um grama de carne, apenas batatas congeladas, e as roupas ficaram totalmente frouxas em nós. E certa vez Leni, de fome, roubou um pedaço de pão na padaria. Mas isso só eu fiquei sabendo. E no início de fevereiro eu disse para mamãe: "Agora comemos o bicho." - "Que bicho?", perguntou e me lançou um olhar severo. "Ora, o gato", eu disse, procurando fazer-me de indiferente, mas eu já sabia o que se seguiria. Todos ficaram contra mim. "O quê? Nosso gato? Não tem vergonha?" - "Não", respondi, "não tenho vergonha. Nós o empanturramos com nossa comida e ele tem tanta banha como um leitão, e ainda por cima é novo, e então?" Mas Leni começou a chorar, e Peter me deu um pontapé por debaixo da mesa, e mamãe disse tristonha: "Eu não imaginava que você tivesse um coração tão mau." O gato estava sobre o fogão e dormia. Ele estava mesmo muito roliço, e tão preguiçoso que praticamente já não se conseguia fazê-lo sair de casa. Então, em abril, quando não havia mais batatas, nós não sabíamos mais o que arranjar para comer. Um dia, eu já estava totalmente transtornado, fiquei cara a cara com ele e disse: "Ouça aqui, nós não temos mais nada, você não enxerga isso?" E eu lhe mostrei o caixote de batatas vazio e o cesto de pão vazio. "Vá embora", disse-lhe, "você está vendo como está a nossa situação." Mas ele apenas pestanejou e se virou sobre o fogão. Aí eu chorei de raiva e bati sobre a mesa. Mas ele não se incomodou com isso. Aí eu o agarrei e enfiei debaixo do braço. Lá fora já estava um pouco escuro, e os pequenos tinham saído com mamãe para recolher carvão na linha do trem. O bicho ruivo estava tão preguiçoso que simplesmente se deixou levar. Fui até o rio. De repente, um homem passou por mim, ele perguntou se o gato estava à venda. "Sim", respondi e já fui ficando contente. Mas ele apenas riu e continuou seu caminho. E de repente eu tinha chegado na beira do rio. Lá havia gelo movediço e neblina, e estava frio. Aí o gato aconchegou-se bem junto a mim, e eu o acariciei e conversei com ele. "Não posso mais ficar vendo isso", eu disse, "não é certo que meus irmãos passem fome e você esteja tão gordo, eu simplesmente não posso ficar assistindo isso." E de repente eu dei um grito bem alto, e então segurei o quadrúpede vermelho pelas patas traseiras e golpeei com ele o tronco de uma árvore. Mas ele apenas gritou. Ainda nem de longe estava morto. Então eu o bati contra um grande bloco de gelo, mas isto apenas lhe fez um buraco na cabeça, e aí o sangue jorrou, e por toda parte havia manchas escuras na neve. Ele gritou como uma criança. Eu bem que teria preferido parar, mas agora tinha que ir até o fim. Continuei a golpeá-lo contra o bloco de gelo, ouvia estalos e não sabia se eram seus ossos ou o gelo, e ele ainda não estava morto. Gatos têm sete vidas, dizem, mas este tinha mais. A cada pancada ele gritava alto, e de repente eu também gritei, e eu estava completamente molhado de suor apesar do frio. Mas uma hora, por fim, ele estava morto. Aí eu o joguei no rio e lavei minhas mãos na neve, e quando olhei mais uma vez para o bicho ele já estava longe, bem no meio dos blocos de gelo, depois tinha desaparecido na neblina. Então senti frio, mas não quis ir para casa. Ainda perambulei pela cidade, mas no final acabei indo para casa. "O que você tem?" perguntou mamãe, "Está branco como um fantasma! E que sangue é este no seu casaco?" - "Meu nariz sangrou", eu disse. Ela não me olhou e foi para o fogão preparar chá de hortelã para mim. De repente, comecei a me sentir mal e precisei sair rapidamente, depois fui direto para a cama. Mais tarde mamãe veio e disse muito tranqüilamente: "Eu compreendo você. Não pense mais nisso." Mas depois, à noite, ouvi Peter e Leni chorando longamente sob os travesseiros. E agora não sei se foi certo eu ter matado o bicho ruivo. Pensando bem, um animal desses não come tanto assim.

 

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