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O inválido enlouquecido do Forte Ratonneau

O conto Der tolle Invalide auf dem Fort Ratonneau (1818) repousa hoje no cume da produção literária de Achim von Arnim (1781-1831), sendo considerado pelos teóricos não apenas como a obra mais conhecida mas também a mais relevante de seu autor. Achim, casado com a também escritora Bettine e cunhado de Clemens Brentano (com quem publicou a famosa coletânea Des Knaben Wunderhorn ou A cornucópia encantada do menino), conta entre os adeptos do círculo de Heidelberg, segunda maior estrela do romantismo alemão.

Marcado pela invasão da Alemanha pelos exércitos de Napoleão em 1806, o grupo de Heidelberg abandonou a perspectiva cosmopolita e a crença absoluta no indivíduo (que eram típicas do círculo de Jena), e tingiu-se de um nacionalismo que o faria aspirar por uma literatura intrinsecamente alemã, capaz de fortalecer a consciência nacional e ajudar a fazer frente aos estrangeiros intrusos. Em Heidelberg, pois, começou a "escavação" das raízes germânicas - um esforço que fez virem à tona os mitos e lendas, as canções e contos de fadas, que até então encontravam-se submersos no anonimato das cabanas campesinas.

É, pois, no palco dos conflitos entre nações que se movem os personagens do O inválido enlouquecido, cuja trama acompanha a turbulenta e desventurada união de um soldado francês com uma moça alemã. Ambos vítimas da guerra, os dois jovens são, além disso, também vítimas de sua paixão - a qual, ao invés de libertá-los de todos os rancores, imprime-lhes uma marca de maldição. Sua convivência torna-se tão hostil - tão "bélica" - quanto o ambiente em que se encontram.

Uma sucessão de desencontros e mal-entendidos vão demarcando a tortuosa trajetória dos personagens, impelindo-os rumo à fatalidade. O confronto entre Francúr e Rosalie - aliás, entre franceses e alemães, e entre o amor e o ódio - transfere-se também para a linguagem do texto: as palavras e frases revestem-se de duplo sentido criando oscilações não apenas entre simples denotações lexicais possíveis mas entre as próprias noções de Bem e Mal. É na esfera da linguagem que, mais intensamente até do que no próprio plano da ação, toma corpo a maldição que persegue os amantes. É na linguagem que se realiza o duelo entre Deus e o diabo, e a fé colide com a superstição. Mais do que isso, é o específico emprego da linguagem que imprime ao texto a oscilação entre o real e o fantástico.

Ao final, as últimas linhas do texto são seladas pela pomba branca da paz, que apaga as mágoas e convida para um novo recomeço; para o leitor, porém, a dúvida continua persistindo: afinal, o que realmente aconteceu? Terá Francúr apenas enlouquecido (em decorrência de um ferimento de guerra que não fora devidamente cuidado) ou foram realmente as forças satânicas que, aproveitando-se de uma praga da mãe da moça, apossaram-se de sua alma e procuraram fazer o mesmo com Rosalie? O permanente jogo da linguagem - em contínua ambivalência - não permite uma resposta segura a este dilema. Talvez a saída do labirinto se mostre a partir de uma interpretação alegórica: tudo não passaria talvez de uma alusão metafórica ao irracionalismo, à perversão e à crueldade da guerra.

Neste sentido, o espírito conciliador que marca o final do texto remete à possibilidade - provavelmente uma esperança acalentada pelo autor - de uma futura concórdia entre as nações. O inválido enlouquecido no Forte Ratonneau traz em seu bojo o ensinamento de que alemães e franceses podem aprender muito uns com os outros, e que podem tecer uma relação de paz e harmonia entre si. Assim, Achim von Arnim, ao escrever este texto, sinalizou aos alemães um porvir de realizações, sem que, para isso, precisasse denegrir ou inferiorizar o oponente.

 

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