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A estátua de mármore

A estátua de mármore (1818), de Joseph von Eichendorff (1788-1857), tece uma complexa rede temática: além de referências ao antigo mito de Pigmalião, há ainda o tópico da viagem à Itália (o qual reflete um anseio típico do romantismo na Alemanha), e traços da vida medieval (a exemplo das andanças dos mestres trovadores que levavam de um lugar para outro seus versos e cânticos).

Como em todos os seus textos, Eichendorff aqui também dá mostras de seu fascínio pela Natureza. Sua paisagem, porém, não evoca imagens sorridentes e aprazíveis, mas exibe uma face noturna, diabólica, aterrorizadora. As sombras da noite deixam entrever a estátua à beira de um lago, mas as nuvens, que ora escondem a lua, ora permitem que esta lance seus raios sobre a água, parecem estar em conluio com a misteriosa Vênus de pedra que atrai e retém cada vez mais em seu poder o poeta Florio. Como que enfeitiçado, este abandona-se à solidão das ruínas em que se encontra a estátua e, assim, vai sendo subjugado pela deusa pagã.

Aqui a Natureza simboliza as forças primordiais - anteriores ao jugo da Razão -, que constituem os impulsos e instintos. Ao deparar-se com aquele monumento sobrevivente de tempos remotos, Florio sente-se embriagado com as novas sensações e sentimentos que ameaçam apossar-se dele por completo. Porém, no momento em que está para entrar e perder-se definitivamente nesses labirintos primitivos aos quais a Vênus o conduziria, o poeta é socorrido por um amigo, e reencontra ao final a bela Bianka, que conhecera no início do texto e da qual se fora esquecendo após o encontro com a Vênus.

Esses aspectos do enredo retomam personagens e situações de textos dos românticos de Jena, os quais também escreveram sobre o encontro de um jovem, inocente e sonhador, com uma imagem feminina insinuante e tentadora. Assim, o jovem Tannenhäuser (Der getreue Eckart und der Tannenhäuser, de Tieck) sente-se imperiosamente atraído para a Montanha de Vênus, que povoa sua imaginação como sendo a morada da arte e da inspiração, mas que os demais personagens abominam considerando-o um lugar de perdição. Em outro texto (Der Runenberg, de Tieck), que também data dos primórdios do romantismo alemão, Christian abandona esposa e filhos para seguir uma enigmática mulher que, aos seus olhos, aparece jovem e bela, mas que, aos demais, surge como uma velha desgrenhada, feia e suja. Tanto Christian como Tannenhäuser são seduzidos por uma força primitiva que os aliena do convívio dos seus e que pode ser interpretada como um símbolo da libertação das convenções sociais e da entrega a instâncias puramente subjetivas.

Eichendorff, um dos maiores poetas e prosadores da fase final do romantismo, retoma o tema desse anseio por rebeldia e emancipação no peito de jovens sensíveis e desajustados (ou não perfeitamente integrados) ao seu meio. O desfecho de A estátua de mármore reflete, porém, a mudança de diretrizes do movimento romântico: se, em Tieck, os protagonistas abandonam a comunidade tornando-se daí em diante renegados, em Eichendorff, o poeta procura conciliar seu manancial criativo com as imposições sociais e acaba integrado em seu grupo.

Aproximando-se já do "Biedermeier" - movimento literário dominante nos anos entre 1815 e 1848 - Eichendorff mostra-se menos efusivo e mais cauteloso no tratamento de um tema fundamental no romantismo alemão: a oposição entre artista e sociedade burguesa, a incompreensão mútua entre aqueles capazes de fruir o prazer estético e aqueles voltados à vida prática e rotineira.

 

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